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27/10/2009 Contos Andinos. Huamán, O Caçador de Falcões. Atila Barros |
Durante muito tempo um grupo de falcões
ocupou uma encosta ao norte de um
pequeno povoado Aymara, este se localiza
no território que hoje é conhecido como
La Paz, Bolívia, no coração da
cordilheira Real.
Esses falcões eram esplendidos em sua
forma de voar e se destacavam como
exímios caçadores. Todos os povos das
regiões vizinhas uma vez ao ano
recorriam a seus poderes místicos a eles
atribuídos pedindo fartura de alimento
em suas casas e paz para seus espíritos
castigados pelas condições áridas das
montanhas. Foi assim por muito tempo e
muitas gerações, os Huamán (Falcões)
foram deificados pelos Aymaras.
Um dia, cansado de perder suas galinhas
para essas aves de rapina, um morador do
pequeno vilarejo armou-se de sua funda e
seguiu para encosta dos falcões no
primeiro filete de luz do dia.
Desafiando os deuses da montanha, passou
todo o dia abatendo os Huamán com sua
pontaria certeira. Ao cair da noite,
exatos trezentos e sessenta e seis
animais estavam mortos.
Depois de recolher todos e armazená-los
em um grande saco de linhagem, seguiu
para praça central do vilarejo, juntou
uma grande pilha de lenha e aos gritos
dizia ter salvado a cidade dos temidos
falcões, não teriam mais de temer por
suas galinhas. Nesta noite, o silencio
cobriu cada membro da comunidade que
estarrecidos olhavam a pilha de aves
sendo queimada.
De uma das casas, uma velha senhora
segue em sua direção, e sem que ele a
perceba, joga sobre sua cabeça algumas
folhas de coca e em suas costas faz o
sinal da cruz. Em seu ouvido ela
sussurra “Seu espirito é de uma galinha
e como ela ira viver, sempre com medo do
seu predador”.
O inverno estava para chegar e sem os
temidos falcões a vida seguiu seu rumo,
porem sem controle. As lebres que antes
se escondiam durante o dia, agora
passaram a saltitar livres pelas
plantações comendo tudo que encontravam
em seu caminho e se multiplicavam as
centenas.
As gralhas que antes eram espantadas
pelos falcões, agora eram uma praga nos
milharais e consumiam o que era poupado
pelas lebres. As casas estavam cheias de
ratos que não tinham limites em suas
crias por conta de não ter para eles um
predador. A vida saiu do controle.
O matador de falcões tinha consigo
tantas galinhas que não poderia em toda
sua vida e nem de sua família comer
tanta carne e usufruir de tantos ovos,
destes os ratos davam conta. O povo de
Tuni não consumia as aves do matador de
falcões porque as considerava impuras e
tinham medo de mais castigos vindos da
montanha.
O desespero se abateu sobre o homem que
condenou seu povo a desgraça por um ato
de covardia e medo de perder seus bens,
a avareza mais uma vez sobrepunha a
razão.
Cansado de esconder-se do seu povo, o
envergonhado caçador de falcões foi até
a encosta rezar para os deuses pedindo
por perdão. Enquanto rezava, nem mesmo
os ventos frios que descem do Condoriri
sopravam como resposta as suas preces, o
mundo parecia parar diante de tamanha
dor de sua alma. Depois de um longo
tempo ajoelhado e vendo que não tinha
resposta dos deuses, por vergonha de seu
povo e de sua família, achou por bem
tirar a própria vida se jogando no lago.
Em um gesto de desespero, tomou a corda
que trazia consigo usada para laçar
lhamas, passou um laço no pescoço e
procurou uma pedra para se atirar nas
águas geladas do lago Chiar Khota.
Passou os olhos pela base da encosta à
procura de uma pedra grande, uma que o
levasse para o fundo do lago. Perto da
parede maior achou uma enorme pedra
arredondada, esta ele poderia mover,
carregar e arremessar.
Para sua surpresa ao levantar a rocha,
alguns ratinhos campestres correram para
fora de sua toca, e em meio a galhos
secos e cascas de ovos que estavam sendo
devorados, dois ainda estavam intactos.
Curioso em saber do que se tratava,
largou a pedra e foi olhar mais de perto
o que seria um banquete de roedores. Ao
colocar nas mãos dois dos pequenos ovos
inteiros, percebeu que estavam quentes e
pesados. Sabia que não eram ovos de
galinhas, sabia que não pertenciam as
gralhas e tão pouco a outros passarinhos
das montanhas, sabia que em suas mãos
tinha a resposta de suas preces, sabia
que os deuses e os espíritos da montanha
haviam escutado seu pedido de perdão.
Correu para sua casa como uma vicunha
saltando sobre as rochas e assim que
chegou, retirou da bolsa os dois
milagres que acabara de encontrar. Como
uma mãe cuida dos filhos, ele aqueceu e
cuidou dos ovinhos.
Por dias não falou com ninguém, e nem
mesmo sua esposa entedia o que estava
fazendo, durante dias ele dormiu com os
ovinhos e os aqueceu em seu corpo.
Em uma fria manha de sábado o silencio
em que vivia o caçador de falcões foi
quebrado por um barulho baixinho de algo
se partindo, os ovinhos se abriram e
deram vida a duas estranhas criaturas
sem pena e com grandes olhos.
Um sorriso primeiro saiu do canto de sua
boca e logo um grito de alegria encheu a
pequena casa acordando a todos que ainda
dormiam. Foi então que contou a sua
esposa e filhos o que lhe tinha
acontecido na encosta dos falcões e a
segunda chance que os deuses lhe deram.
Correndo como o vento, foi até a
benzedeira do povoado e pediu que
ofertasse folhas de coca e comida aos
espíritos em agradecimento ao nascimento
dos animais, e que suplicasse aos
espíritos sabedoria para guiá-lo em como
cuidar destas novas aves.
A velha disse que faria isso, e que
pediria aos espíritos para lhe dar uma
alma nova, já que como uma galinha
medrosa e zelosa soube cuidar dos seus
ovos, agora teria de ter alma de falcão
para cuidar de seus novos filhotes,
teria a alma de um Huamán.
E assim foi feito, o homem que antes
criara galinhas, agora treinava falcões.
As aves cresceram e foram levadas de
volta a encosta de onde seus pais foram
abatidos. Com lagrimas nos olhos este
homem devolveu seus filhos à montanha e
o ciclo da vida seguiu seu curso
novamente.
As aves formaram um casal, e destes
nasceram outras aves, e logo em poucos
anos devido à fartura de lebres e ratos
o numero de falcões se tornou tão grande
quanto antes. Os céus das montanhas
brancas estavam novamente divididos
entre falcões, águias e condores.
No fim da vida, o criador de falcões
pediu a seus filhos que no dia de sua
morte, seu corpo fosse coberto por penas
de galinhas e enterrado na encosta dos
falcões. Dizia que mesmo que ainda fosse
pai dos falcões, ele ainda era uma
galinha que merecia cuidar dos seus
pintinhos.
Até o dia de sua morte, o homem Huamán
agradeceu a segunda chance que teve para
corrigir seus erros e salvar sua alma.
Fonte: Texto extraído do projeto
"Pachamama" - 2009 - Atila Barros
Força sempre e boas
escaladas!
Atila Barros














