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28/04/2011
Montanhismo e Ciência
Por Gustavo H. Pietsch Vianna
 


 - Montanhismo e Ciência

Lendo um artigo escrito pelo pioneiro montanhista Édson Struminski “Du Bois”, para o informativo Mountain Voices, fiquei muito empolgado com a possibilidade de aliar minha formação acadêmica ao montanhismo e assim me contribuir um pouquinho com a formação esportiva consciente no montanhismo.

Felizmente sou botânico e possuo um leque enorme de possibilidades no ambiente das montanhas. Aqui onde resido, em Belo Horizonte, ou melhor, em Minas Gerais, a nossa localização geográfica nos proporciona ambientes diversificados, riquíssimos em biodiversidade.

Aqui, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica se encontram, num ecótone bastante particular e muitas vezes extremamente sensível. Soma-se a isso o complexo arcabouço geológico, que influencia nos processos pedogenéticos e a diversidade dos ecossistemas se multiplica.

Nós, montanhistas, estamos em contato direto com toda essa riqueza e somos co-responsáveis por ela. Atores protagonistas dessa trama. Das montanhas dependemos e devemos zelar.

Nesse mosaico natural encontrado nas montanhas, um ecossistema particular me fascina. Os campos rupestres, relictos de um ecossistema outrora bem mais abrangente e exuberante. São repletos de endemismos e estão restritos a “ilhas”, nas partes mais elevadas do Sul e Sudeste do Brasil. Encontram-se ameaçados e ainda pouco estudados. No entanto, entre nós montanhistas, já são bastante conhecidos e admirados.

Quando mencionei que tais ecossistemas são relictos, referi-me a um ecossistema que em épocas mais frias no nosso continente, antes mesmo da presença humana por aqui, esse complexo vegetacional ocupava uma área bem maior, talvez contínua em todo o conjunto montanhoso do centro sul do Brasil. Agora, encontra-se restrito aos topos mais elevados, normalmente acima dos 1500m de altitude, menos de 1% do território nacional.

E essas condições climáticas e edáficas particulares e hoje singulares em território brasileiro presenteiam os campos rupestres brasileiros com espécies da flora especialíssimos. Destaco aqui a família Velloziaceae. Com 6 gêneros e aproximadamente 250 espécies, têm distribuição neotropical, sendo os campos rupestres brasileiros o seu centro de diversidade. No Brasil ocorrem cerca de 200 espécies e continuamente novas espécies são descobertas.

São conhecidas popularmente como canelas-de-ema e embora tenham flores muito vistosas, são pouco exploradas pela dificuldade de cultivo e lento crescimento. Emprestam seu nome a um importante complexo ecoturistico situado aos pés da majestosa serra do cambotas, a cerca de 80 km da capital mineira.  Alem da imponente parede quartzítica usadas para a prática da escalada em rocha, também abriga uma população extremamente ameaçada da rara canela-de-ema-gigante (Vellozia gigantea N.L.Menezes & Mello-Silva). Outrora encontrada apenas na Serra do Cipó, a descoberta dessa nova população enche de orgulho e responsabilidade a comunidade montanhista. Temos o privilegio de conviver com essas obras primas da natureza e a obrigação de cuidar para que este patrimônio não se perca.

Esse fato, que não é único quando se fala em campos rupestres, demonstra a grande importância desse ecossistema e enorme responsabilidade dos montanhistas com a preservação ambiental.

La, onde foram recentemente encontradas, aquelas que estavam no meio do caminho de turistas mais desinformados foram cruelmente queimadas, arrancadas e dizimadas. Entretanto, nos cumes mais isolados, onde somente nós montanhistas escaladores conseguimos chegar, estão intactas, enfeitando e enchendo de esperanças nossos corações e mentes.

Preservem a natureza, pratiquem o mínimo impacto, escalem com responsabilidade!

Obrigado à equipe do ROCHA & GELO pela oportunidade!
Gustavo Pietsch Vianna

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