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31/03/2009
A montanha pode esperar?
Atila Barros
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O
Brasil vive um momento de grandes transformações,
impulsionadas por novas demandas da sociedade e pela
transformação acelerada da economia mundial, e para
se enquadrar é preciso ser o melhor no que fazemos.
Essas mudanças são positivas, elas estão permitindo
aumentar a eficiência, assegurando ganhos de
produtividade essenciais para a concretização do
potencial de crescimento da economia brasileira, que
sabemos ser enorme. Essa mudança está levando também
à modernização do Estado, que vai deixando o papel
de empresário para assumir outro, de importância
crescente, na regulação da economia e na promoção da
igualdade de oportunidades. Finalmente, são essas as
mudanças que permitirão ao Brasil alcançar uma
integração com o resto do mundo que seja socialmente
benéfica e economicamente saudável. Por outro lado,
sabemos que são mudanças desafiadoras. Ainda não
conhecemos inteiramente os efeitos da globalização,
realidade inescapável deste final de século, sobre
as relações econômicas e sociais. Com todas essas
mudanças e olhando para nossa realidade, fica a
pergunta; A montanha pode esperar?
Hoje os bons profissionais estão ficando de fora do
mercado de trabalho, isso porque, quem deseja
manter-se ativo em sua carreira precisa buscar
sempre a excelência. Para isso é necessário
desprender tempo e dinheiro em graduações,
mestrados, cursos de especialização e muita
dedicação a projetos e metas. Com uma carga horária
diária de oito horas em media de trabalho, já se
torna difícil tomar decisões quanto ao
aproveitamento do tempo livre, sabendo que este deve
ser dividido entre os estudos, família e lazer, onde
encaixar o esporte de montanha nesta corrida linha
de tempo?
A grande maioria dos esportistas de montanha não
possui patrocínios, para qualquer investida a uma
montanha, a viabilização do projeto sai do próprio
bolso, onde conseguir o necessário para uma viagem
se não trabalhando muito? Tenho grandes amigos que
hoje conseguem viver do esporte, porem sempre estão
no limite entre jogar a toalha e continuar pelo amor
ao esporte.
O montanhismo em sua verdade infelizmente é um
esporte para poucos, e mesmo em seu básico, o pouco
equipamento necessário para escalar em segurança
ainda é caro para realidade da maioria. Quando é
quebrada a barreira da escalada em rocha tradicional
e tem inicio a procura por grandes montanhas dentro
e fora de nossas fronteiras, a verdade financeira
começa a bater na porta do escalador. São meses
planejando uma expedição para que nada saia errado,
ou muito menos saia do escopo financeiro planejado.
Nada pode dar errado.
Tenho a experiência de amigos que por pouco não
ficaram presos em terras vizinhas por falta de
planejamento. No final da viajem faltou dinheiro
para pagar a taxa de embarque do aeroporto. Pode
parecer bobagem, mas a vontade de escalar é tanta
que no fim das contas, alguns dólares parecem não
fazer diferença, mas fazem.
Passar a semana planejando a escalada do fim de
semana é a realidade de muitos aqui, ou até mesmo
faltar ao trabalho para passar o dia escalando (Que
meu chefe não leia isto). Já perdi a conta de
quantas consultas ao dentista eu já marquei e na
verdade estava na Urca ou Grajaú escalando. A
vontade de escalar é tanta que colocamos até nossos
empregos em risco para satisfazer a vontade de estar
na rocha. Será que podemos arriscar tanto?
Com o mercado de trabalho cada vez mais disputado,
sobra pouco tempo para o esporte e para nossos
projetos, até onde a montanha pode esperar?
Hoje muitos montanhistas conseguiram unir o trabalho
e o esporte, mas trabalharam muito para isso se
tornar possível. Médicos, empresários, lojistas,
professores e advogados, estes entre muitas outras
profissões podem dar-se o conforto de dividir uma
gama maior te tempo entre sua vida profissional e o
esporte, porem isso demandou muito trabalho e
dedicação.
Pude acompanhar a vida de alguns amigos que deixavam
de escalar fim de semana para se enterrar em pesados
livros de direito ou horas dentro de um laboratório
de química da universidade. Perdi a conta de quantas
madrugadas eu passei trabalhando em projetos que no
fim só me garantiam alguns poucos pontos na media
final da matéria. Faria tudo de novo, a montanha não
podia esperar.
Analisando friamente nosso meio, diria que primeiro
é necessário fazer capital, gerar meios e viabilizar
o projeto, ou seja, sem patrocínio, você é quem vai
gerar o capital para criar os meios e chegar a sua
meta. Para fazer esse capital é preciso investir em
si mesmo. Estudar, se especializar e ir cada vez
mais fundo no que você é melhor. Neste caso, a
montanha pode esperar um pouco. É necessário sermos
melhores a cada novo dia, a cada nova semana, a cada
novo mês e a cada novo ano.
Continuemos planejando nossas viagens em nossos
escritórios durante uma demanda e outra. Seremos
sempre o centro das atenções ao comentar com alguém
do trabalho sobre nossas peripécias de feriado,
férias e fim de semana. Seremos chamados de loucos e
irresponsáveis pelos amigos que só pensam na cerveja
gelada e no futebol do fim de semana. Sempre seremos
sonhadores e esquisitos por achar que diversão é
esfolar o dedo na rocha e dormir mal em uma barraca
com a temperatura abaixo de zero. Difícil fazer toda
essa gente entender que a montanha não pode esperar.
Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros
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