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18/09/2003 Amazônia "primitiva" tinha grandes cidades, diz estudo Por Maggie Fox |
WASHINGTON (Reuters) - A região no norte da
Amazônia, que se pensava ser primitiva até algum
tempo atrás, na verdade abrigou sofisticadas
redes de cidades e vilarejos há centenas de
anos, disseram pesquisadores.
Evidências arqueológicas e imagens de satélite mostram que a área foi densamente povoada antes da chegada de Cristóvão Colombo e dos colonizadores europeus, com cidades com praças, estradas de mais de 50 metros de extensão, fossos profundos e pontes, de acordo com a descoberta dos pesquisadores.
A pesquisa foi liderada pelo arqueólogo norte-americano Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, e também contou com dois chefes indígenas da tribo Kuikuro do Alto Xingu e com os pesquisadores brasileiros Bruna Franchetto e Carlos Fausto, ambos da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
O estudo, publicado na revista Science, sugere a existência de uma sociedade avançada e complexa, além de a descoberta de formas alternativas de usar a Floresta Amazônica sem destruí-la.
"Numa área em que hoje existem apenas três aldeias relativamente pequenas, com no máximo 400 pessoas, há centenas de anos havia 19 aldeias ligadas por estradas completamente retas que abrigavam de 2.500 a 5.000 pessoas", disse Fausto à
Reuters.
De acordo com Heckenberger, os vilarejos estavam todos dispostos de uma maneira parecida -- e as estradas eram matematicamente paralelas. "É uma coisa fantástica", afirmou durante uma entrevista por telefone.
Heckenberger disse que os povoados datam de 1.200 d.C. e 1.600 d.C.
"A cada 3 ou 5 quilômetros havia um outro vilarejo ou cidade", disse ele. "Alguns destes vilarejos tinham cerca de 50 hectares", acrescentou.
DEFESA
"Por volta do século 9o as aldeias vão crescendo, e no século 13 houve o surgimento de uma estrutura defensiva parecida com a de fossos usados nos castelos medievais", disse Fausto, acrescentando que estas "valetas do Xingu" tinham dois quilômetros de extensão e quatro metros de profundidade.
As pessoas provavelmente usavam pontes para atravessar os fossos, que foram construídos possivelmente por pressão de outros grupos indígenas que utilizavam táticas de guerrilha, com ataques de surpresa, disse o pesquisador brasileiro.
ESTRADAS LARGAS
"Nos vilarejos, algumas das estradas tinham 50 metros de largura. Porque 50 metros? Não havia veículos com rodas. Eles não tinham corridas de carro ou coisas do tipo e certamente não tinham exércitos incas.", disse Heckenberger.
Ele acredita que as estradas largas e praças eram versões antigas de monumentos da sociedade do Xingu -- parecidas com as pirâmides dos maias.
"Claramente é uma coisa estética", disse ele. "Traz conhecimento astronômico sofisticado, conhecimento matemático e coisas que associamos com as pirâmides. É uma alternativa humana diferente à complexidade social."
Tais trabalhos poderiam gerar uma economia produtiva, acrescentou ele. Mas a civilização não era tão grande nem tão urbanizada quanto as civilizações sul-americanas mais conhecidas.
"Todos adoram a 'civilização perdida na história da Amazônia'. O que o Alto Xingu e as coisas da Amazônia nos mostram é que o povo da Amazônia se organizava de uma maneira alternativa para urbanização. Nós não estávamos esperando encontrar cidades perdias. Mas não significa que não eram tribos primitivas, também."
A agricultura era sofisticada, disseram os pesquisadores, e provavelmente usavam estratégias diferentes das modernas de cortar a mata para abrir caminho, disse Heckenberger.
"O que realmente nos mostra é que existem alternativas do que é geralmente apresentado como um roteiro tudo ou nada", disse ele.
A Amazônia não era primitiva quando colonizadores europeus chegaram -- trazendo com eles doenças como varíola e sarampo que quase dizimaram as populações indígenas.
"Eu acredito firmemente que a maioria do que hoje é floresta foi convertido em algum outro tipo de ambiente -- floresta secundária, campos de grama, pomares com árvores frutíferas ou plantações de mandioca", disse ele. Ainda há pessoas vivendo na região do Xingu e são descendentes destas cidades, disse ele, mas as populações estão distribuídas de forma bastante dispersa.
Força sempre!
Atila Barros














