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26/07/2003
Brasileiros conquistam montanha virgem no Himalaia.
Sérgio Corrêa Vaz/Especial para BR Press

(BR Press) - Os alpinistas Marcelo Rey Belo e Juliana Bechara Belo, junto com mais oito montanhistas da Eslovênia, Croácia, Rússia e equipe de apoio de sherpas (povo que vive nas montanhas), foram os primeiros brasileiros a escalar uma montanha "virgem" no Himalaia, o Mt. Pharilapcha, de 6.017 metros. Ao que se tem registro, é a primeira vez que brasileiros conquistam uma montanha no Himalaia (veja box). Rey Belo, Juliana e toda a equipe receberam uma honraria das mãos do primeiro-ministro nepalês, Lokendra Bahadur Chand.

O feito, no dia 22 de maio, foi a forma que Rey Belo e Juliana encontraram de participar das comemorações no Nepal dos 50 anos de conquista do Everest. Sagharmatha para os nepaleses, com seus 8.850 metros, foi conquistada às 11h30 da manhã (hora local) do dia 29 de maio de 1953 pelo alpinista inglês sir Edmund Hillary e pelo sherpa nepalês Tenzing Norgay.

Centenas de montanhistas de todo o mundo reuniram-se em maio no Nepal, para a comemoração de meio século daquele que é o desafio mais emblemático vencido pelos homens frente à montanha. E cada cidade, cada aldeia do país festejou a conquista que mudou a referência do Nepal para o resto do mundo. Hillary, mesmo com o eventual apoio de uma bengala, fez questão de estar presente às comemorações (veja box).

Na temporada de 2002/2003 de escaladas no Nepal, a montanha Pharilapcha, (latitude norte 27° 55´ e longitude leste 86° 40´) , foi uma das três liberadas para "conquistas", ou seja, para uma escalada inédita. Todos os anos, a Associação Nepalesa de Montanhismo negocia com as autoridades do país quais serão aquelas permitidas para exploração e escalada. Três foram reservadas para as comemorações dos 50 anos da conquista do Monte Everest. Rey Belo e Juliana perceberam que seria uma ocasião única para tentar este feito inédito e escolheram o Pharilapcha. "Ninguém tentou o Machermo, três tentaram o Kyajo-ri, que era o mais fácil, mas não chegaram ao cume, e dez fizeram o Pharilapcha", relata Rey Belo.

Nas comemorações, o Brasil foi representado apenas por três casais de brasileiros. Além de Rey Belo e Juliano, lá estavam Paulo e Helena Coelho, alpinistas paulistas que já estiveram cinco vezes no Everest. "Estar na montanha é a verdadeira forma de comemorar, segundo o espírito montanhista" (veja box). E também Renato Affonso e Sandra Freiberger. Todos montanhistas associados ao CAP - Clube Alpino Paulista (www.montanhismo.org.br), que já tem mais de quatro décadas de atividades no Brasil e no mundo.
O site Peak Ware, um dos mais requisitados para pesquisa sobre montanhas e conquistas em todo o mundo, registrou a conquista de Rey Belo e Juliana.

Imenso desafio

A escalada foi árdua, com visibilidade precária no cume e uma descida dificílima e estafante. Mas os dois não são novatos no ramo. Já escalaram montanhas na Bolívia e Peru, além de terem feito uma tentativa de chegar ao cume do Aconcágua, pela temida rota polonesa . A conquista do pico mais alto da América só não foi possível em janeiro último, pois Juliana, aos cinco mil metros começou a sentir dor de cabeça e mal estar, sintomas típicos da falta de aclimatação.

Affonso, além de presidente do CAP, tem um "currículo" que inclui montanhas e cumes na Bolívia e na Patagônia, entre as quais, as famosas Torres del Paine. Bióloga, Sandra já participou como pesquisadora do Programa Antártico Brasileiro, Proantar (http://www.secirm.mar.mil.br/inindex.htm). Mas antes só havia escalado picos em Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, região sudeste do Brasil. Durante as comemorações, Affonso e Sandra tentaram escalar o Domla, com 5.800 metros. Chegaram a 5.600 metros, mas o tempo "virou" e Sandra também teve problemas de aclimatação à alta altitude.

Rey Belo e Juliana contam como foi sua escalada.

Como foi a preparação de vocês para ir ao Himalaia com a intenção de escalar?

Rey Belo - Havíamos feito uma preparação para o Aconcágua, o que ajuda muito na aclimatação. E eu corro cinco ou seis quilômetros pela manhã.

Juliana - Apesar do pouco tempo disponível, tento ir à academia duas vezes por semana onde faço musculação e bike class. Nos outros dias corro uns seis quilômetros. Nos fins de semana, quando possível, escalamos em rocha ou fazemos caminhadas.

Vocês já haviam saído do Brasil com a intenção de escalar o Pharilapcha?

Rey Belo - Na verdade, tínhamos três montanhas para escolher e nossa primeira opção era o Machermo, mais alto e mais difícil, que se mostrou inviável. Então voltamos as atenções para o Pharilapcha.

Quais foram as dificuldades logísticas no Himalaia?

Rey Belo - Pela primeira vez, experimentamos escalar com apoio de carregadores sherpas. Foi uma nova experiência. Estamos acostumados a carregar mochilas gigantes, com mais de 25 quilos, fazer nossa própria comida, montar nossa barraca... Lá nada disso foi necessário e ao conversamos com os "gringos" parece que este é o padrão local ! Em alguns momentos chegamos a comentar que parecia estranho, ter gente fazendo o que nós "temos" que fazer, mas como diziam "É assim que se escala no Nepal"!

Juliana - Na realidade, este tipo de apoio, apesar de esquisito para nós que nunca havíamos escalado no Himalaia, poupou minhas energias para o dia de ataque ao cume.

Descer uma alta montanha é sempre muito mais exigente e arriscado. Como foi esta experiência do Pharilapcha?

Rey Belo - Normalmente, a descida é tecnicamente mais fácil e fisicamente menos exigente. Porém, costuma ser o momento onde ocorre a maior parte dos acidentes, principalmente pelo cansaço e pelo descuido, pois algumas pessoas erram ao achar que quando chegam ao cume a escalada terminou. No nosso caso, a maior dificuldade ocorreu pelo grande acúmulo de neve que se formou (durante cerca de 2 horas, nevou mais de 25 cm!) e a descida desencordados e com inclinações de 75º tornou-se bastante arriscada.

Juliana - Realmente tive muito mais receio durante a descida, principalmente pelo acúmulo que não permitia uma fixação segura dos crampons e da piqueta.

Outros montanhistas de outros países subiram no mesmo dia? Como foi o último dia da escalada?

Rey Belo - Estávamos em 22 pessoas. Grande parte do grupo era formado por montanhistas bastante experientes. Quatro já haviam escalado o Everest, um fez os sete cumes (mais altos de cada continente), outro o Everest pela temida Crista Oeste. E outro montanhista já havia feito dez dos 14 cumes com mais de 8 mil metros do Himalaia e do mundo!!! Depois de avaliarmos a escalada -- as rampas de gelo tinham cerca de 80º e a escalada em rocha chegava ao sexto grau superior na graduação francesa a 5.850 metros de altitude --, só dez resolveram "arriscar". Como tínhamos diversos trechos delicados resolvemos que não era possível escalarmos todos nos mesmo dia e nos dividimos em três grupos. No dia da escalada, acordamos às duas horas, tomamos café às três e saímos às quatro da madrugada. Chegamos ao pé da canaleta às cinco horas, nos equipamos (cadeirinha, capacete, crampon...) e começamos a escalada de verdade às 05h30. A canaleta tinha inclinações variando entre 45º a até 80º em alguns trechos. A maior dificuldade que encontramos foi escalar 40 metros a 5.850m com uma dificuldade técnica de sexto grau superior na escala francesa! Estes 40 metros foram a parte mais difícil. Depois "só" mais 100 metros verticais e chegamos ao cume, onde chegamos ao meio-dia e meia. Chegamos de volta ao acampamento às 18h30, já exaustos.

Que tipo de preparo vocês consideram necessário para uma escalada deste tipo?

Rey Belo - Curso de escalada em rocha (ou um curso básico de montanhismo), curso de escalada em gelo e experiência em outras montanhas. Apesar de "só" ter 6.017m, o Pharilpcha é uma montanha bastante exigente o que torna a escalada mais demorada e perigosa. E experiência em montanhas mais altas ajuda bastante. Sem dúvida, o Pharilapcha não é o tipo de montanha para iniciar-se no esporte.

Qual era a experiência anterior de vocês?

Rey Belo - Comecei com o curso básico de montanhismo do CAP e durante um ano só escalei em rocha. No ano seguinte, fiz cursos de primeiros-socorros e resgate e tive minha primeira experiência em montanha. Fiz uma caminhada de onze dias em volta da cordilheira Huay Huash, no Peru, e escalei o Nevado Pisco, com 5.752 m. No outro ano escalei cinco montanhas com + de 5.500m entra elas o Huayna Potosi, com 6.094 m, na Bolívia. Também participei como alpinista de apoio no Programa Antártico Brasileiro e no início deste ano estive no Aconcágua Sou coordenador de cursos do CAP e diretor técnico da FEMESP Federação de Montanhismo do Estado de São Paulo (www.femesp.org).

Juliana - Comecei explorando cavernas no Petar em 1993, logo em seguida experimentei escaladas em rocha. Em 1995, fiz um Curso de Escalada em Gelo na Bolívia. Em 1999, fiz o Curso Básico de Montanhismo do CAP, e aí sim, comecei a me dedicar mais intensamente ao esporte. Depois disso escalei algumas montanhas na Bolívia, na região do Condoriri e o Huayna Potosí. Em janeiro estive no Aconcágua, tentando o Glaciar dos Polacos.

Nestas comemorações dos 50 anos de conquista do Everest, sir Edmund Hillary criticou o excesso de montanhistas que, em expedições comercias, se dirigem ao Himalaia e, particularmente, ao próprio Monte Everest. Como vocês, que são montanhistas há vários anos, examinam esta questão?

Rey Belo - É triste ver o que o excesso de pessoas faz com lugares tão maravilhosos. Pessoalmente, acredito que o maior problema é causado pelas expedições comercias, que levam para montanha pessoas despreparadas e sem nenhuma formação. O verdadeiro montanhista não é o que escala a montanha mais difícil nem a mais alta, é o que escala respeitando a natureza, a população e as tradições locais. É aquele que não coloca o cume acima de tudo. Uma das sugestões, que surgiu em uma reunião no Nepal, é que para se escalar o Everest, você teria que ter escalado outra montanha de 8 mil metros antes, e para escalar um 8 mil, você teria que escalar dois ou três sete mil antes. Este sistema ajudaria a dispersar os montanhistas por outras montanhas e evitaria que pessoas despreparadas e sem experiência fossem direto ao Everest. Outra atitude seria cobrar uma multa por cada cilindro de oxigênio que fosse deixado para trás e ao fim de cada temporada usar o dinheiro arrecadado par pagar um "serviço de limpeza" feito pelos sherpas.

Juliana - Concordo integralmente! Como vocês definem o povo do Nepal? Como eles participam das comemorações dos 50 anos?

Rey Belo: Os nepaleses são muito alegres, gentis e receptivos. Apesar de haver preocupação com as montanhas por parte das autoridades, para o povo a grande festa foi ver a cidade e as montanhas cheias de turistas.

Juliana - O povo nepalês é extremamente preocupado em agradar e fazer com que nós, turistas, nos sintamos bem. Além disso, são excelentes alpinistas e muito orgulhosos de Tenzing Norgay. Quando chegamos em Kathmandu, estavam começando as comemorações do Jubileu de Ouro. As celebridades estavam chegando e participamos de diversas palestras e festas. Além de sir Edmund Hillary, estavam presentes o filho e o neto do Tenzing Norgay, Junko Tabei (primeira mulher a escalar o Everest) e Reinhold Messmer (primeiro a escalar o Everest sem oxigênio suplementar e primeiro a fazer a escalada em solo). Entre os dez que fizeram o cume, éramos os únicos ocidentais e eu, a única mulher.

BOX 1 - Como Brasil chegou ao cume do Nepal

(BR Press) - Entre alpinistas, escalar uma montanha de "apenas" seis mil metros não pode se comparar com montanhas de oito mil de "ar rarefeito", com baixíssima taxa de oxigênio. Essa diferença de dois mil metros verticais torna as condições atmosféricas extraordinariamente mais exigentes para o organismo humano. Desde a década de 80, alpinistas ligados ao Clube Alpino Paulista escalavam no Himalaia, no Nepal, quase sempre em expedições organizadas por poloneses, na época entre os mais preparados do mundo.

José Luiz Pauletto "estreou" no Himalaia, em 1985, junto à uma dessas expedições em condições de igualdade, quanto a preparo e desempenho. Desde então, Pauletto se tornou guia de alta montanha e esteve mais de vinte vezes na cordilheira asiática.

Embora o Everest tenha sido conquistado em 1953, apenas quatro décadas depois a primeira expedição brasileira foi organizada. Em 1991, Thomaz Brandolim liderou o primeiro grupo nacional ao Everest. O mal tempo impediu que eles acendecem pela face norte. Participavam os então "novatos" -- no Everest ao menos --, Paulo e Helena Coelho. Eles lá voltaram outras três vezes. Todas elas sem cilindros de oxigênio e sem a tradicional ajuda dos sherpas nepaleses -- duas condições que eles sempre consideraram representativas do verdadeiro espírito montanhista. Sempre chegaram perto do cume, sem alcançá-lo de fato.

Em 1999, desistiram de sua tentativa para ajudar o alpinista lisboeta João Garcia a retornar ao acampamento, desorientado e desgastado pelas condições que enfrentara no cume. Ganharam o prêmio de ética esportiva do comitê internacional de Fair Play, órgão da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura).

Sérgio Beck, outro montanhista da "velha guarda´, que perambulou muito pelo Himalaia, foi, em 1991, o primeiro brasileiro a escalar um "oito mil": o Cho Oyu, com 8.201 metros. E sem oxigênio artificial.

Em 1992, o guia de montanha franco-brasileiro, Michel Vincent, foi o primeiro brasileiro a escalar o Everest. Jamais se preocupou em se vangloriar por isso.

Em maio de 1995, o paranaense Waldemar Niclevicz e o carioca Mozart Catão chegaram ao topo do Everest, em uma expedição comercial. Em 2000, Niclevicz escalou o temível K2, junto com o experimentadíssimo guia italiano de alta montanha, Abele Blanc.

BOX 2 - Com a palavra, o top dos topos Edmund Hillary (BR Press) - "Custo a acreditar que já se passaram 50 anos que Tenzing e eu pisamos, pela primeira vez, o topo do Everest. De uma certa forma, escalar o Everest significou mais um começo do que um fim. Lembro perfeitamente da sensação de estar no alto da montanha, com um brilho de satisfação, avistando o profundo Barun Valley -- na direção do enorme e ainda não escalado cume do Monte Makalu.

Naquele momento, do alto do Everest, vislumbrei uma possível rota para seu respeitável pico. Eu não percebi o Everest como o final de tudo -- era apenas uma etapa a ser superada e havia muito mais a ser feito."

* Sérgio Corrêa Vaz é jornalista e montanhista.

Força Sempre e boas escaladas!
Atila Barros

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