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07/06/2006
Chame o sherpa!
No Everest, ajudar um montanhista doente é raridade,
a tarefa é relegada aos nepaleses. |
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Pode até parecer estranho falar assim dos amigos de
alta montanha, mas o texto a seguir serve de exemplo
para todos, perto do nível do mar ou da zona da
morte. O amor pela vida deve falar mais alto, e
principalmente a vida do próximo. Existem casos e
casos, como o de
Joe
Simpson (Tocando o Vazio - Editora Companhia das
Letras - 2004), que foi deixado para traz por seu
amigo que o deu como morto depois de cair em uma
greta. Até onde vai a ética e termina a compaixão,
já realizei resgates que me custaram horas descendo
as Agulhas Negras (Rio de Janeiro - Itatiaia) de
baixo de chuva forte e muita dor de cabeça, e devo
confessar que faria quantos vezes fossem precisos.
Cabe a cada um de nos esportistas decidir o que é
mais importante, o cume ou uma vida. - Eu voto
pela vida.
Revista VEJA, de sete de Junho 2006.
Duda Teixeira.
A ambição de chegar ao
topo da montanha mais alta do mundo justifica deixar
de socorrer um companheiro à beira da morte? A
resposta para a maioria das pessoas com certeza é
não. O padrão ético que prevalece no Monte
Everest, o pico de 8.850 metros de altitude na
Cordilheira do Himalaia, na fronteira da China com o
Nepal, é menos nobre. Sofrendo com o ar rarefeito,
com os dedos congelados pela temperatura de 30 graus
negativos e conscientes de terem pago no mínimo
20.000 dólares para estar ali, os alpinistas têm
como regra ajudar apenas a si próprios acima dos
8.000 metros. No dia 15 do mês passado, o inglês
David Sharp, 34 anos, sentiu-se mal por causa da
altitude. Quarenta alpinistas passaram pelo
montanhista e nada fizeram. Sharp morreu naquela
noite dentro de uma caverna. Dez dias depois, o
australiano Lincoln Hall, 50 anos, chegou ao pico e,
no percurso de volta, caiu exausto. Seus
companheiros de escalada continuaram a descida e
deixaram três sherpas para ajudá-lo. Os
sherpas,
um povo do Nepal nascido e criado em aldeias acima
de 3.000 metros, estão acostumados à altitude
elevada e especializaram-se em ser auxiliares e
carregadores dos alpinistas.
Após nove horas, os
sherpas também desistiram de Hall e o abandonaram na
neve. No dia seguinte, três montanhistas o
encontraram parcialmente sem roupa e sem gorro.
"Vocês devem estar surpresos de me ver aqui", disse
o australiano. Quem eles chamaram para socorrer o
milagroso sobrevivente? Os sherpas, claro. Por
rádio, os alpinistas pediram ajuda ao acampamento,
de onde foi enviada uma equipe de carregadores para
fazer o resgate.
As duas histórias de
abandono aconteceram na zona da morte, acima de
8.000 metros de altitude. A partir daí, há um sério
risco de o alpinista sofrer desidratação, edema
cerebral ou pulmonar e alucinações. A única maneira
de se salvar é descer a pé, já que a atmosfera rala
praticamente impede o resgate de helicóptero. O
brasileiro Vitor Negrete, morto há duas semanas
depois de atingir o cume pelo caminho mais difícil e
sem o auxílio de oxigênio, foi vítima dessas
condições extremas. "Nessa altitude é difícil
manter-se vivo, quanto mais salvar a vida de outra
pessoa", disse o neozelandês Mark Inglis, o primeiro
homem com as pernas amputadas a chegar ao cume do
Everest. Inglis testemunhou a agonia de Sharp? e
também não se sentiu capaz de ajudar. À preocupação
com a própria vida junta-se outra razão para os
atletas não socorrerem os colegas: o compromisso com
o patrocinador. "Na cabeça dos montanhistas,
voltar para casa sem chegar ao cume equivale a
romper o contrato, apesar de nenhum patrocinador
fazer essa exigência", diz o paranaense Alir
Wellner, que subiu o Everest em 2002 com o
conterrâneo Waldemar Niclevicz.
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A temporada
deste ano no Everest, encerrada no fim de
maio, foi a segunda mais letal da história,
foram dez mortes, duas a menos que em 1996,
o ano mais trágico. As fatalidades se
multiplicaram com a popularização do desafio
de chegar ao topo do mundo. Desde que o
neozelandês Edmund Hillary e o sherpa
Tenzing Norgay alcançaram o cume, em 1953, 2
557 pessoas repetiram a façanha até o ano
passado. |
Por 10.000 dólares,
podem-se contratar dois sherpas para carregar toda a
bagagem necessária para a expedição. O turista leva
apenas uma garrafinha de água, um cilindro de
oxigênio e o lanche. A partir dos 8.000 metros, os
sherpas não são obrigados a seguir em frente. Por um
bônus de 500 dólares, no entanto, eles podem
acompanhar o cliente. "Os sherpas se acostumaram a
fazer tudo por dinheiro e, assim, fica mais difícil
alguém ajudar outra pessoa por pura compaixão", diz
Niclevicz. Aos sherpas recai também a tarefa de
resgatar quem ficou para trás na montanha ? desde
que, para isso, sejam bem pagos. De graça só o
bom-mocismo de alguns atletas altruístas. Por duas
vezes, o casal de paulistas Paulo e Helena Coelho
teve de desistir de alcançar o cume do Everest para
ajudar outros montanhistas. Em 1999, eles socorreram
o português João Garcia. Chegaram a pedir ajuda aos
líderes de outras expedições e a seus sherpas, mas
não foram atendidos. No mês passado, Paulo precisou
voltar ao acampamento com um malásio, auxiliado por
dois sherpas. Ao comentar a morte de David Sharp, o
pioneiro Edmund Hillary disse, na semana passada:
"Eu não deixaria nenhum membro da minha expedição
para trás". O romantismo das escaladas no Everest
parece ter chegado ao fim.
Revista VEJA, de sete de Junho 2006.
Duda Teixeira.
Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros |
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