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02/06/2003
Tráfico incendeia mata para criar rotas de fuga
Luiz Ernesto Magalhães
Enviado a Montanha.Bio.br por Eduardo Folha.

A visão do alto da Pedra do Andaraí é desoladora: parte da vegetação do Maciço da Tijuca, ao redor dos morros do Andaraí e da Formiga e da favela Nova Divinéia, desapareceu consumida por incêndios. A destruição foi obra de traficantes, que abrem clareiras na mata para poder fugir mais facilmente. O alpinista Antônio Cândido Dias, de 56 anos, do Centro Excursionista Brasileiro (CEB) e com mais de 20 anos de experiência em explorar as encostas da cidade, lamenta:

— Os bandidos abrem clareiras na mata para ter rotas de fuga alternativas. É lamentável, pois cada vez perdemos um pouco mais de floresta — lamentou Antônio.

Além dos traficantes na Tijuca, loteamentos irregulares na Freguesia, em Jacarepaguá, e favelas que não param de crescer no Itanhangá estão na longa lista de agressores do maciço que ameaçam a integridade do Parque Nacional da Tijuca.

Floresta corre risco de sumir em poucas décadas

Uma tese de doutorado defendida no ano passado no Instituto de Geografia da UFRJ, por Jesus Fernando Mansilla Baca, pesquisador da Embrapa, mostra que o maciço pode perder até 2092 cerca de 80% de suas áreas de floresta — incluindo as do Parque Nacional da Tijuca. O trabalho consistiu no desenvolvimento de um programa de computador que simula a evolução da devastação, tomando por base o ritmo com que as matas foram destruídas nos últimos anos.

— Não quero ser alarmista. Mas o modelo atual de ocupação do maciço pode fazer com que quase toda a floresta desapareça em poucas décadas, alterando o clima da cidade — diz Jesus, que é engenheiro.

O estudo parte de dados levantados pelo Instituto GeoHeco, da UFRJ, a partir de 1972. Na época, as florestas predominavam, ocupando 51,17% do maciço, enquanto 13,72% eram urbanizados. A tendência é de que em 2008 os espaços urbanizados (30,33%) superem os verdes (24,98).

A pesquisa alimenta a polêmica sobre a eficácia de liberar encostas do Alto da Boa Vista e da Tijuca para a construção de condomínios, que conteriam a favelização, como propôs a prefeitura em projetos que tramitam na Câmara de Vereadores.

A professora Ana Luíza Coelho Neto, da UFRJ, que orientou Jesus, alerta que a liberação das encostas pode acelerar o ritmo de degradação no maciço. Segundo ela, os projetos de reflorestamento e as exigências ambientais, como o plantio de mudas para substituir árvores removidas para a construção de casas, podem ser insuficientes:

— De longe, encostas reflorestadas transmitem uma falsa sensação de segurança. Podem se passar cinco anos até as raízes crescerem o suficiente para ter capacidade de reduzir os riscos de deslizamento.


Força sempre!
Atila Barros

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