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19/05/2004
Sobre o direito autoral e sua prática
Jean Pierre Von Der Weid
Enviado por Jerônimo Quintes dos santos. |
Há
muito se fala do direito autoral, muitos negando-o no
caso de vias de escalada. Sobre este assunto há textos
excelentes na página da FEMERJ ou em outros meios de
divulgação, elaborados por alpinistas de várias partes
do mundo, unânimes em defender, nominal ou
indiretamente, o direito autoral e condenar a
retrogrampeação de vias. Creio que esta posição vem se
firmando em nosso meio, apesar de algumas exceções. O
que me surpreende, no entanto, é que sempre que uma
via é alterada com redução de grampos à revelia dos
conquistadores, sua recuperação é imediatamente
providenciada. O contraste com a lentidão cósmica com
que se recuperam vias retrogrampeadas é gritante.
Aqueles que insistem em retirar as intermediações são
raros e vistos com reservas por toda a comunidade. Se
há ou não o direito autoral e para onde queremos
caminhar no esporte é a pergunta que devemos nos fazer.
Direito autoral
O direito autoral é inerente a qualquer ato criativo e
a preservação da obra e de seus direitos chega mesmo
ao direito comercial. Este é o caso de um músico por
exemplo, que compõe uma obra e vive de seus direitos.
Ele deve receber uma fração da renda resultante da
execução da obra e ninguém discute isso. Um escritor
ou poeta registra sua obra e passa a ter direitos
legais sobre ela. Com isso ele previne cópias não
autorizadas e plágios de sua criação. Estes são casos
claros de direitos autorais de obras que serão usadas
por qualquer pessoa, diferente do caso de um pintor
que vende um quadro para um cidadão, que passa a ser o
novo proprietário. O novo dono pode fazer o que quiser
do quadro que comprou, inclusive destruí-lo, exceção
clara das grandes obras de artistas famosos onde
existe o entendimento que a cultura mundial perderia
com este gesto insensato. Claro que falo aqui apenas
em teoria, ninguém destruiria um Rembrandt ou um
Portinari se estivesse de posse do seu juízo.
Um escalador escolhe uma via numa parede, vai lá,
carrega o material, faz os lances parando nos platôs
possíveis, bate grampos em condições muitas vezes
arriscadas ou precárias e finalmente dá por terminada
sua conquista. Como classificar isto? É claro que no
primeiro dos casos, aquele em que ela é uma obra que
será desfrutada por um grande número de pessoas.
Ninguém é dono da via que conquistou, ele é apenas o
autor. Mesmo que hoje em dia alguns ganhem dinheiro
subindo escaladas conquistadas por outros, não existe
a prática do pagamento de direitos. O esporte foi
originalmente amador, aqui e em qualquer lugar do
mundo, e este amadorismo das origens manteve-se na
tradição: o conquistador não recebe direitos materiais
sobre sua conquista, recebe apenas o prazer de tê-la
realizado e a satisfação de ter proporcionado prazer
semelhante aos que a escalarem posteriormente. Por ser
o autor, no entanto, o conquistador guarda o direito
sobre sua criação, que consiste na escolha do traçado
da via, do tipo, quantidade e posicionamento dos
grampos, etc.
Modificar uma via de conquista equivaleria a um caso
de plágio, onde uma obra é modificada para benefício
de outro que não o autor. O traçado original da via
existe, mas a grampeação foi alterada. O benefício
pode ser imaterial - a falsa glória de ter feito uma
escalada antes tida como muito difícil - ou mesmo
material, já que a profissionalização do esporte
aumenta cada vez mais. Note-se que, ao contrário do
plágio de um texto ou música, numa conquista
modificada a obra original é destruída.
Há hoje quem advogue, até mesmo em textos, que
qualquer escalador tem o direito de trocar grampos de
uma via sem nem consultar os conquistadores. Ora,
negar o direito autoral é negar o ato criativo ao se
realizar uma conquista. Não faz sentido. Realmente, as
paredes de rocha não são de ninguém, mas a invenção da
forma de subi-las é do conquistador. Este é um direito
que precisa ser respeitado. Não é qualquer um que tem
condições de regrampear uma via, mesmo que tente bater
os grampos perto dos originais. É fácil "matar" um
lance mexendo em apenas alguns centímetros a posição
do grampo. Não é qualquer um que sabe bater um grampo
bem batido. Não é qualquer um que sabe escolher o
material a ser usado no grampo ou o tipo de grampo a
ser usado. Isto faz parte da criação, e mexer nisto é
negá-la. É o caso da recente regrampeação no Lagartão
feita sem consulta, com grampos de aço inox, material
que considero totalmente inadequado. Outro exemplo é a
grampeação feita na chaminé Cachoeiro, com grampos
extras que ajudam a saída dos lances. Os
conquistadores devem ter seu direito protegido. Mexer
numa via de escalada, mesmo para uma manutenção
necessária, deve passar pela consulta aos
conquistadores.
Para onde queremos caminhar? Uns acham que é melhor
grampear tudo metro a metro, transformando uma via
numa escada de grampos que o pseudo-guia escolherá
usar ou não de acordo com o seu medo. É a "democracia
do esporte" - todos poderão ir às montanhas e paredes
famosas com "risco zero". Outros acham que podem subir
em tal ou qual parede, via difícil e famosa, mas não
tem a coragem de expor-se. Com medo, grampeiam o lance
e se vangloriam depois de terem feito a escalada, como
se ela ainda fosse a mesma. Muitos são os exemplos
destas posturas em vias clássicas aqui no Brasil. Há
uma corrente que alega que uma via pouco grampeada põe
em risco a vida alheia, justificando alterações à
revelia dos conquistadores. Esta postura falsamente
ética deu até processo em tribunal, acusando de crime
a recuperação de uma via tradicional como a chaminé
Stop, hoje intermediada por dezenas de grampos. O
contraste entre o caso da Stop e do K2 é marcante. O
K2 e o Diedro Pegasus cujos grampos das fendas foram
arrancados sem consulta aos conquistadores, foram
recuperados em uma semana. A Stop está do mesmo jeito
há anos. Sejamos equânimes na preservação das nossas
vias.
O mais importante é não deixarmos perder-se o espírito
original do nosso esporte, um desafio moral e
espiritual, uma viagem de autoconhecimento e
solidariedade. O que nos importa é fazer, e não dizer
que fez o que não se fez de verdade. Aceitemos as
nossas próprias limitações. Há vias que eu não posso
guiar. Por falta de condição técnica escalarei muito
no limite, com medo de cair e machucar-me. Devo
grampeá-las para reduzi-las à minha condição? Claro
que não, muito mais honesto é pedir que alguém me leve
lá. Mais ainda, há vias que nunca poderei fazer, de
tão exigentes. Que outros as façam e me contem a
história. Será um prazer imenso ouvi-los.
Inf: Jerônimo Quintes dos
santos |