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28/04/2003 A verdade sobre os pretensos ataques de tubarão no Rio. Marcelo Szpilman |
Como biólogo marinho, especialista em peixes marinhos, e diretor do Instituto Ecológico Aqualung, me sinto na obrigação de esclarecer o que vem ocorrendo no litoral do Rio. Fatos absolutamente isolados estão sendo reunidos, de forma oportunista, para criar falsos alarmes de perigo de ataque de tubarão, gerando medo e insegurança para a população do Rio.
Fato 1 - Na 5ª feira, dia 24, um praticante de para-pente informa ao Corpo de Bombeiros ter avistado dois tubarões na praia da Barra, gerando o primeiro "alarme" sobre tubarões no litoral do Rio.
Comentários: no litoral do Rio vivem diversas espécies de tubarões há milhões de anos. Avistar alguns espécimes em uma dia com águas claras e quentes, ainda que seja uma curiosidade, não é nenhuma novidade e não representa nenhum tipo de ameaça.
Fato 2 - Na 5ª feira, dia 24, um banhista, pegando jacaré na praia de Copacabana, alega ter sido mordido por um tubarão. Sofreu cortes em dois dedos da mão direita.
Comentários: não há evidências que comprovem ter sido um ataque de tubarão. Uma mordida de tubarão não provoca "cortes" no dedo. Ataques de tubarão no Rio são muito raros e absolutamente improváveis. O último registro de ataque de tubarão em Copacabana foi em 1947 e mesmo assim foi um acidente e não um verdadeiro ataque.
Fato 3 - Na 6ª feira, dia 25,
um pescador captura em Grumari, com uma rede de pesca, um tubarão da
espécie ´Mako. O exemplar é mostrado ao público como um troféu e passam
a relacionar sua captura com o pretenso ataque em Copacabana.
Comentários: cações e tubarões, de
diversas espécies, incluindo o
Mako, são capturados todos os dias pelos
pescadores. Esses tubarões capturados são comercializados nas peixarias
e mercados. Relacionar a captura de um tubarão Mako com o ataque de
Copacabana é, no mínimo, uma irresponsabilidade. Afirmo, categoricamente,
como especialista, que os dois fatos são isolados e nada têm a ver um
com o outro.
Fato 4 - No sábado, dia 26, um grupo de banhistas, na praia da Joatinga, arrastam para fora da água um tubarão e o matam a pauladas na areia. Enquanto batiam no animal, um dos banhistas foi "arranhado" pelos dentes do tubarão.
Comentários: estive no sábado
no 2º G-Mar, da Barra, para onde foi levado o tubarão, inicialmente
chamado de tigre, e o identifiquei como sendo da espécie
mangona. Existiam vários relatos desencontrados sobre como e
porque o animal apareceu na praia. No entanto, dizer que ele estava
perseguindo alguém e encalhou na areia, certamente é falso. A mangona
é muito comum no litoral Sudeste, porém não costuma chegar tão próximo
da arrebentação, muito menos no raso. Não é uma espécie agressiva e,
absolutamente, não é perigosa. Não há registros de ataque no Brasil.
Essa espécie, inclusive, encontra-se em perigo de extinção.
As fotos mostrando os banhistas arrastando o tubarão pela cauda para
fora da água indicam que o animal estava morimbundo, pois nenhum homem,
por mais forte que seja, consegue capturar e arrastar um tubarão são
(sadio e vivo) para fora da água. Mesmo ferido e quase morrendo um tubarão,
ou qualquer outro animal com dentes afiados, pode ser perigoso se acuado
e agredido. O arranhão sofrido por um dos banhistas demonstra isso.
Não há mudanças no meio ambiente e nem fenômenos atípicos que possam
ser utilizados como argumento para o aparecimento de tubarões nas praias.
A ocorrência de tubarões em nosso litoral sempre foi e continua sendo
um fato muito comum. Não há nenhuma razão plausível para alertas sobre
perigo de ataque. É lamentável e muito ruim para a imagem do Rio de
Janeiro termos falsas notícias sobre ataques de tubarões, que, se não
esclarecidas a tempo, podem vir a provocar pânico.
Marcelo Szpilman
Diretor Instituto Ecológico Aqualung
Rua do Russel, 300 / 401, Glória, Rio de Janeiro, RJ. 22210-010
Tels: (21) 2558-3428 ou 2558-3429 ou 2556-5030
Fax: (21) 2556-6006 ou 2556-6021
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