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01/10/2008 |
Toda essa salada
de marcas e esse mundaréu de nomes gringos na rocha
às vezes me preocupam, ou melhor, me incomoda. Não
sou um grande escalador, e nem estou perto dos
grandes nomes da escalada no Brasil, sou fã de todos
eles, como todos da minha geração que iniciaram a
escalar lendo sobre as conquistas das lendas como
Alexandre Portela, André Ilha, Mozart Catão, Sérgio
Tartari, Eliseu Frechou e muitos outros. A cada
vídeo de escalada que pirateava pela internet, a
cada matéria que saia nas poucas revistas de
escalada no Brasil, e lendo sobre as aventuras de
Pedro Hauck e Maximo Kausch no site Gente de
Montanha, minha vontade de escalar e ir mais longe
para grandes montanhas só crescia, e não seria essa
salada das marcas que me colocaria longe das rochas.
No inicio me sentia envergonhado quando caminhava
com uma mochila da Trilhas e Rumos velinha e usava a
roupa mais surrada para ir à montanha, me sentia um
estranho aos olhos dos já mas que preparados membros
dos clubes excursionistas. Lembro-me de uma abertura
de temporada de montanhismo no Rio de Janeiro, a
primeira que participei se não me engano em maio de
2000, quando em uma barraca de um clube
excursionista tradicional escutei a logística para
se ir à travessia da Serra dos Órgãos (Petrópolis –
Teresópolis), eram nomes de equipamentos que nem
sonhava em ter, fora a quantidade de coisa que se
tinha de levar, mas uma vez a salada das marcas.
Pensei comigo mesmo, como tinha feito este mesmo
percurso três vezes sem isso tudo? Será que se
tratava da mesma travessia? Será que fui negligente
comigo mesmo e com meus amigos? Só fui ter a
resposta anos depois.
Escalei durante muito tempo com poucas costuras e
mosquetões, revezando corda emprestada de amigos e o
pouco equipamento que cada um tinha. Não era o único
que escalava assim, rachar uma corda entre amigos
era a solução para se continuar escalando. No final
dos anos 90 freqüentávamos as praias do Rio de
Janeiro catando blocos para escalar e dormíamos nas
piores barracas que os grandes mercados podiam
vender (Aquelas da sessão de camping perto das
rações para cães!), só faltava o remo vir de brinde,
porque água ela já fazia na primeira chuva, tínhamos
um bote em vez de uma barraca. A grana era curta
nessa época éramos estudantes e só pensávamos em
escalar as falésias do litoral carioca.
Hoje me deparo com a garotada que deixa de escalar
porque a sapatilha ta apertando, a calça que tenho
não serve para caminhar, minha camisa não é de
material apropriado para ir à montanha. Já vi gente
armado até o pescoço, fantasiado de escalador para
fazer Top-Roupe no Grajaú (Rio de Janeiro - RJ), era
tanta ferragem na cadeirinha que ficava até ruim de
escalar. Parece piada mais não é. Enquanto tem gente
que se vira como pode tem gente que se fantasia como
quer.
Não sei se isso é fruto das lojas que impõem suas
marcas ou do capitalismo que dita a poder aquisitivo
até dentro do esporte outdoor. São poucos os que não
se importam em estar bem vestido até para ir pro
mato, talvez esse fenômeno seja mais visível nas
capitais. Vejo a diferença no interior do Brasil,
nas cidades mais afastadas dos grandes centros.
Quando viajo para escalar no interior de Minas
Gerais, vejo a garotada mandando V1 e V3 de
sapatilha rasgadinha dos lados e pouco se
preocupando se ta usando camisa da solo e bermuda da
By (Ótimas marcas!). Eles só querem escalar, estar
ali, perto da rocha. Sonham em ser um Chris Sharma
só para mandar um Dreamcatcher 11b/11c ou correr o
mundo para um dia ver uma montanha com gelo.
É claro que não da para ir longe sem equipo
adequado, sou fã de carteirinha da Black Diamond e
da North Face, e quando se trata de mochilas
nacionais a Equinox é super competente, mais será
que é motivo para não sair de casa?
Marcas estrangeiras viraram status entre os
praticantes de esporte de aventura. Ter uma mochila
da Millet ou uma bota da Salomon é como usar camisas
da Lacoste, parece brincadeira mais não é. Mal sabe
a galerinha do HUHU! que essas marcas se acham fácil
a preço de banana nas feiras livres e lojas de
cidades como Ushuaia, Arequipa ou La Paz. Certa vez
no peru comprei um casaco da North Face para minha
namorada por vinte e cinco dólares, coisa que aqui
no Brasil sairia por uma pequena bagatela de
quatrocentos reais, isso sendo bem otimista no
preço. Uma compra necessária, já que se tratava de
um agasalho para lugares de frio extremo (Mesmo
assim ela me odiou por quase congelar na Bolívia,
ela seria uma boa montanhista).
Uma vez escalando em São Tomé das Letras, Minas
Gerais, pude sentir na pele essa verdade. Emprestei
minha Boreal para um dos meninos que escalam por lá,
ele estava me dando às dicas de um bloco, quando
perguntei se ele queria entrar para tentar. Passei
minha sapatilha pra ele como sempre fazemos entre
amigos que escalam juntos, ele me disse que nunca
usara uma bota importada, e pouco usou uma nacional,
a que ele usava era um Kichute com as travas
cerradas. Ele mandou o bloco sem nem mesmo suar para
passar no Crux. Depois de anos tive a resposta para
uma velha pergunta que fiz a mim mesmo; O que eu
preciso para escalar?
Existem dois tipos de escaladores, os de alma e os
de fim de semana, ou melhor, dizendo escaladores de
loja. Os escaladores de alma só querem estar onde
deveriam, perto das rochas ou no topo de uma
montanha, e mesmo durante a semana quando no
trabalho, só pensam em onde vai ser sua próxima
conquista. Os escaladores de fim de semana também
estão onde deveriam estar, dentro das lojas, listas
de e-mail e postando comentários desnecessários nos
sites, dando trabalho para os moderadores e
webmasters.
Agora chega de papo e “vamu pra rocha”!
Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros













