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Dezesseis
lagos de
formação
glacial
ameaça a
população
dos
vales de
Khumbu,
segundo
os
cientistas.
Na
ausência
de uma
solução,
os
sherpas
respondem
à
catástrofe
com seu
budismo.
Para a
grande
maioria
dos
viajantes,
montanhistas
e
escaladores
que
tiveram
a
oportunidade
de
visitar
o Parque
Nacional
de
Sagarmatha,
a
palavra
Khumbu
trará à
memória
experiências
gratificantes
e
inesquecíveis:
o
trânsito
pelos
vales
que
ascendem
o maciço
mais
alto do
planeta,
sua
convivência
com o
povo
sherpa
ou a
oportunidade
de poder
escalar
o Monte
Everest.
Para a
comunidade
científica,
no
entanto,
a
palavra
Khumbu
evoca a
bacia do
glaciar,
que
abriga
nada
mais e
nada
menos
que 16
dos 21
lagos
glaciais
considerados
potencialmente
perigosos
no Nepal
e
suscetíveis
a gerar
uma GLOF
(inundação
por
transbordamento
do lago
glacial,
sua
sigla em
Inglês).
Esta
situação
pode
ocorrer
quando o
dique de
contenção
natural
ede
total ou
parcialmente
liberando
grandes
quantidades
de água
e
criando
um
"tsunami
interior",
gerando
consequências
catastróficas.
No
passado,
houve
pelo
menos 35
GLOF no
Butão,
China e
Nepal. A
última
lista
publicada
(2001),
que
também
inclui a
Índia e
o
Paquistão,
registra
um total
de 203
lagos
potencialmente
perigosos.
O vale
glacial
de
Khumbu,
junto ao
de
Rongxer
(Tibet),
é o
segundo
que
reúne o
maior
número
deles
(16),
somente
superada
pela
região
de Pumqu,
também
no
Tibete,
que
acolhe
um total
de 38.
Testemunhas
da
mudança
Ang
Tshering
Sherpa,
nascido
em
Khumjung,
no
coração
do
Khumbu e
atual
presidente
da
Associação
de
Montanhismo
Nepal
foi
testemunha
viva da
rapidez
com que
as
geleiras
estão
derretendo.
"Sempre
recordo
que,
quando
criança
cruzava
com os
nossos
rebanhos
a
passagem
de Lhola,
abaixo
da face
oeste do
Everest,
a antiga
rota de
comércio
até o
Tibet.
Hoje a
passagem
é
impraticável,
a camada
de gelo
desapareceu
e há
flancos
pendurados
em
ameaçadoras
e
enormes
massas
de
gelo”.
Os
cientistas
asseguram
que o
aumento
da
temperatura
no
Himalaia
Central
e
Oriental
tem sido
muito
mais
alto que
a média
mundial,
o que
afeta
diretamente
ao
Nepal.
Mas o
retrocesso
glacial
deriva
outro
problema:
o
acúmulo
de
grandes
massas
de água
que
ameaçam
transbordar.
Ang
Tshering
também
nos fala
sobre a
formação
de um
grande
número
de novos
lagos
glaciais
e
fazendo
referência
a Imja,
considerado
hoje
como um
dos
potencialmente
mais
perigoso,
recorda
que "não
existia
quando
eu e
meus
pais
visitávamos
a área
para
pastoreio
dos
iaques.
Atualmente,
a
comprimento
do lago
supera
um
quilômetro
e meio e
armazena
mais de
35
milhões
de
metros
cúbicos
de
água". O
vale do
Duh
Koshi,
por onde
passa o
"trek"
do
Everest
e
coração
do povo
sherpa,
coleta
de água
de mais
de 500
geleiras
em
constante
declínio.
Atualmente
quase
600
lagos de
formação
glacial
foram
registrados.
Não é de
estranhar,
então,
que
quase
30% dos
GLOF
ocorridos
no
Himalaia
do
Nepal,
tiveram
lugar na
região
de
Khumbu.
O
primeiro
lago a
transbordar
em
Khumbu
foi o
Naru,
localizado
ao sul
do Ama
Dablam.
Em
setembro
de 1977,
o
dique de
contenção
natural
terminal
entrou
em
colapso
e, ainda
que a
GLOF só
tenha
destruido
uma
pequena
central
hidrelétrica,
os
numerosos
deslizamentos,
uma
forte
erosão
na
margem
do rio e
o
desaparecimento
de
estradas
fizeram
grandes
danos
ecológicos.
Oito
anos
mais
tarde,
uma
grande
massa de
gelo
desprendida
do
glaciar
Langunche
acima do
lago Dig
Tsho
concretizou
a
catástrofe.
A
avalanche
de água
que
causou
uma onda
de 10 a
15
metros
varreu
uma
central
hidroelétrica,
14
pontes,
cerca de
trinta
casas,
consideráveis
extensões
de
cultivo
e 5
vidas
humanas.
Em
setembro
de 1998
o
transbordamento
do Tham
Phokari,
também
afetado
por uma
avalanche,
retirou
várias
vidas e
causou
danos
avaliados
em 156
milhões
de
rúpias
(cerca
de 1,7
milhões
de
euros).
O último
GLOF que
os
habitantes
de
Khumbu
recordam,
foi o
que
causou o
lago
Chubung,
apenas a
15 km a
oeste de
Dig Tsho.
Foi
relativamente
pequeno
e só
afetou
algumas
casas em
Beding,
o
principal
povoado
do vale
de
Rowaling,
além de
causar
deslizamentos
de terra
e grande
erosão
na
margem
do rio.
Atualmente,
aos
olhos da
comunidade
científica,
aponta
claramente
o lsgo
Imja,
localizado
a cerca
de 10 km
ao sul
do
Everest.
Imja, a
espada
de
Damocles
do povo
Sherpa
Desde o
ano de
1985, a
Universidade
de
Nagoya
no
Japão,
publicou
um
estudo
sobre
inundações
catastróficas
no
Nepal,
incluindo
o
fenômeno
GLOF em
Khumbu,
demonstrando
que o
lago
Imja
está
maior e
em
contínuo
crescimento.
A
geleira
que o
alimenta
está
desaparecendo
em uma
velocidade
recorde
de 74
metros
por ano
nos
últimos
anos,
sendo
provavelmente
o de
retrocesso
o mais
rápido
em todo
o
Himalaia.
Segundo
o último
relatório
publicado
pela
ICIMOD
(1) em
maio
passado,
o Imja é
o mais
perigoso
de todos
os lagos
que iram
resultar
em GLOF
nos
Himalaias.
No
entanto,
Pradeep
Mool,
especialista
em
controle
remoto e
avaliação
de risco
dessa
organização
é muito
crítico
com
certas
informações
publicadas
que
podem
criar
alarme
desnecessário
entre a
população.
"Já em
1994 -
diz
Pradeep
- a
International
Mountain
Society
publicou
um
artigo
que
sentenciava:
"Há uma
forte
possibilidade
de que
Imja
drene
catastroficamente
em um
futuro
próximo".
Desde
então,
os
habitantes
do vale
tem
vivido
em
constante
preocupação
- e
acrescenta
- 16
anos se
passaram
e em
nossa
opinião
o lago
continua
mostrando
estabilidade".
Desde
então, o
lago tem
sido
motivo
de
constantes
investigações
por
várias
universidades
e
instituições
científicas.
ONGs e
jornalistas
também
têm
demonstrado
interesse
no tema
gerando
uma
grande
quantidade
de
notícias;
uma
avalanche
de
informações
que tem
semeado
lentamente
uma
sensação
de
vulnerabilidade
entre os
habitantes
dos
povoados
mais
suscetíveis
de serem
afetados
por uma
possível
GLOF. "A
cada ano
- disse
Ang
Tshering
- um
monte de
grupos
procedentes
de
diferentes
países
visitam
Imja e
nos
alertam
sobre a
possibilidade
de uma
catástrofe.
Sob tal
pressão,
o que
podemos
fazer?
Os
habitantes
do vale
não têm
recursos
para
mudar
suas
casas e
zonas de
cultivo".
Tendo em
conta
que o
lago
supera
em seis
vezes no
tamanho
de Tsho
Dig, o
efeito
de uma
possível
GLOF
poderia
ser
devastador.
Seis
povoados
estão
expostos
diretamente
ao
tsunami
que se
criaria
e a
estimativa
de
possíveis
danos
materiais
supõe a
perda
total ou
parcial
de mais
de 60
moradias,
200
pontes,
grandes
extensões
de
cultivo
e uma
pequena
central
hidrelétrica,
além de
um
gravíssimo
reverso
ecológico
provocado
por
movimentos
de
terra,
lavagem
da
margem
do rio e
da perda
de
estradas,
entre
outros
danos.
"Que não
venham
sem uma
solução”
Publicado
em junho
passado
no
Kathmandu
Post,
bravas
declarações
de Chimi
Sherpa,
líder
social
de
Khumbu:
"De
agora em
diante,
se
alguém
vier
aqui
para
falar
sobre
isso sem
dar uma
solução,
deveríamos
perseguir-lo
e o
jogar no
vale."
Tensing
Tashi
Sherpa,
membro
da
Associação
de
Estudantes
Sherpas,
conhecido
pelos
habitantes
de
alguns
povoados
mais
expostos
a uma
possível
GLOF,
não
compartilha
da
opinião
de que
no vale
se viva
sobre
tal
tensão,
mas
mostra
um
cansaço
evidente
pelo
excesso
de
informações
dos
últimos
anos.
“Não nos
preocupamos
com o
assunto”
-
determina
claramente,
“decidimos
deixar
de ouvir
especialistas
e
jornalistas,
e deixar
as
coisas
nas mãos
dos
deuses”.
Tensing
é a
favor de
seguir o
conselho
de
Rinpoche
[título
de
caráter
religioso
utilizado
pelo
budismo
tibetano]
do vale:
"A cada
determinado
período
subimos
até o
lago
para
manter a
área
limpa de
lixo e
fazer
orações
para não
aborrecer
os
espíritos
do
lago”,
concluindo
que
"isto,
mais de
acordo
com
nossa
cultura
e
tradição
budista,
é mais
lógico
do que
mergulhar
em um
mar de
informações
que só
nos
geraria
medo e
ansiedade".
Por seu
lado, os
estudos
do
Centro
Internacional
para
Desenvolvimento
Integrado
das
Montanhas
(ICIMPD)
acalmam
as
águas.
Esta
organização
independente
com sede
em
Kathmandu
e que
atualmente
lidera a
monitorização
e
avaliação
de risco
dos
lagos
glaciais
na
região
do Hindu
Kush-Himalaias,
em
estreita
colaboração
com o
Secretariado
Geral de
Redução
do Risco
de
Catástrofes
da ONU,
descarta
um risco
iminente
de GLOF.
Desde o
início
de sua
formação,
no ano
de 1967,
o
dique de
contenção
natural,
de uma
amplitude
considerável,
não foi
significativamente
afetada.
"Além
disso -
comenta
Predeep
Mol - o
lago
apresenta
pouca
profundidade
nessa
extremidade,
pois a
pressão
sobre a
represa
é
baixa”.
Ainda
assim
não se
pode
descartar
um
transbordamento
causado
por uma
avalanche
ou por
um
terremoto.
Neste
último
ponto
Pradeep
também
se
mostra
otimista:
"Rodeando
o lago,
além dos
diques
laterais
existem
dois
pequenos
vales
paralelos
que
isolam
avalanches
diretas
sobre
ele. Mas
se os
nossos
futuros
estudos
nos
levará a
detectar
uma
situação
de risco
iminente
aconselharíamos
imediatamente
ao
governo
nepalês
que
inicie
ações de
prevenção,
semelhantes
as
realizadas
em Tsho
Rolpa.
O lago
Tsho
Rolpa
chegou,
em
meados
dos anos
90, a um
estado
crítico.
Em 1995
foram
instalados
sifões e
posteriormente
se
construiu
um canal
a fim de
reduzir
o nível
do lago
e manter
o dique
intacto,
graças à
ajuda do
governo
holandês.
Ainda
que o
projeto,
com um
custo de
3.000
milhões
de
dólares
(2.435.000
€),
reduziu
a
possibilidade
de uma
iminente
GLOF, o
lago
continua
a ocupar
um lugar
de
destaque
na lista
dos
potencialmente
perigosos.
Por
outro
lado, os
especialistas
alertam
sobre a
delicadeza
destas
mudanças
nos
diques,
pois, se
apresenta
muita
instabilidade,
a
própria
tentativa
de
redução
poderia
ser a
causa do
colapso.
Tudo
indica
que o
vale dos
sherpas
está
enfrentando
um
problema
de
solução
muito
difícil.
Tentar
dominar
de
bilhões
de massa
de gelo
e massa
de água
em
constante
movimento
sugere
tanto
aos
especialistas
como aos
neófitos
um jogo
muito
difícil
que não
se joga
em casa.
No
entanto,
é bom
que a
comunidade
científica
continue
observando
atentamente
a
evolução
do lago
e que as
organizações
competentes
no
Nepal,
com a
ajuda da
comunidade
internacional,
liderem
com
antecedência
as
possíveis
ações
preventivas
adequadas
ao caso
específico
Imja,
sem
esperar
que
finalmente
este dê
sinais
objetivos
de
atingir
um
estado
crítico,
ou cause
inevitavelmente
um GLOF
de
proporções
catastróficas.
Info:
Desnivel.com
Tradução:
Maria
Fernanda
Patrício |