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Marcio Araujo - Trilha para Praia do Meio.

02/04/2010
Guaratiba - Rio de Janeiro.
No quintal de casa.
Marcio Araujo

São poucas as grandes cidades em todo o mundo que possibilitam aos moradores de uma metrópole a oportunidade de sair rápido de todo este mundo caótico de asfalto e concreto, e o Rio de Janeiro é uma dessas cidades privilegiadas, bom para os seus habilitantes, melhor ainda para quem gosta de escalar em áreas banhadas pelo atlântico.

Com este pensamento, o site inicia uma série de matérias dedicadas a mostrar esses lugares a novas gerações de caminhantes e escaladores, e relembrar a outras tantos amigos e desconhecidos esses verdadeiros oásis inseridos no coração da cidade maravilhosa.

Para iniciar nossos caminhos por estas bandas, de prima mostraremos as belezas das praias da região da Reserva Biológica e Arqueológica de Guaratiba, esta que hoje abriga uma variedade de opções para quem deseja se aventurar por suas praias. O ponto de partida é o bairro da Barra de Guaratiba.

Wikipédiando, a Região inicialmente chamada de “Guratiba-Aitinga”, ou “Aratuquacima”, é uma palavra indígena usada pelos tupinambás, que habitavam o nosso litoral na época do descobrimento. Sua definição é “lugar onde há grande quantidade de garças/garceiro.” É fácil perceber que o vocábulo surgiu de outros dois: “guará”, que quer dizer “ave”; e “tiba”, que significa “lugar onde há muita coisa reunida.” Daí: “Guaratiba”. Esta definição é uma realidade, pois até hoje ainda nos encanta a reunião de garças Brancas, nos, manguezais da região.

Encravada ao pé da Grota Funda, estendendo-se até a Baía de Sepetiba, abrangendo os seus canais de acesso, bem como a barra para o oceano, Guaratiba é um dos bairros que apresenta uma das menores densidades demográficas da cidade do Rio de Janeiro. Sua situação demográfica assemelha-se, ainda hoje, a do Recreio dos Bandeirantes no início da década de 80, ou a da Barra da Tijuca na década de 70. Devido à sua grande extensão territorial, é dividido em sub-regiões ou sub-bairros, todas elas ainda dispondo de grandes áreas desocupadas, e com previsões para loteamentos futuros, que apresentam, em sua maioria, uma vegetação rasteira, apicum e grandes manguezais. Em suas encostas encontra-se mata atlântica e também muitos bananais.

Distante cerca de sessenta quilômetros do centro do Rio de Janeiro e trinta do subúrbio de Campo Grande, quem chega a Guaratiba fica fascinado com a beleza do local, logo no inicio da estrada de acesso ao bairros já se pode ver as pontes que ligam a região á Restinga da Marambaia (Área Militar Restrita).

Ao lado esquerdo de quem chega ao bairro se vê o Morro da Espia, do alto deste morro que toca o mar, em dias de mar agitado, vê-se um imenso lençol de espuma causado pelas constantes ondas que quebram e rolam até o Guriri, Syagrus schizophylla (Licuriroba, Coco-caboclo, Aricuriroba, Ariri, Nicuri ou Coco-babão), espécie de planta que cobre toda a extensão da restinga e produz pequenos cocos. Esta linda paisagem tem servido de cenário para filmes, novelas e inspiração para fotógrafos e artistas plásticos.
Marcio - Topo da Pedra da Tartaruga.

É no morro da Espia que começamos nossa trilha para ter acesso a três praias isoladas que são cobiçadas por visitantes de todos os tipos, do montanhista ao farofeiro. Logo após alguns minutos de caminhada pela trilha principal, esta que esta bem demarcada pelo grande numero de acessos, chega-se a Praia do Perigoso, esta é de fácil acesso.

Todas as praias quem compõem o complexo Guaratiba estão localizadas dentro de uma APA (Área de Proteção Ambiental), aonde um ótimo projeto de reflorestamento vem sendo bem sucedido, os visitantes mais antigos já percebem as mudanças. Freqüento o parque desde 2000, e hoje vejo uma melhora considerável. No que antes estava sendo considerado barranco, já temos uma grande quantidade de arvores nativa, e com o retorno das arvores por conseqüência temos o retorno da fauna.

A avifauna é riquíssima e ainda abriga diferentes tipos de ave, como o raro colhereiro. É área de nidificação de aves paludícolas e ponto de repouso e alimentação de aves migratórias. Lá, podem ser encontrados, com freqüência, sebinho-do-mangue, pica-pau-anão, viuvinha e socó-dorminhoco. Entre as espécies migratórias, surgem maçarico-de-coleira, maçarico-de-peito-branco e batuíra. O maior destaque entre os répteis é o jacaré-do-papo-amarelo, também ameaçado de extinção. Entre os mamíferos, destacam-se irara e a lontra.

Se estendendo um pouco mais, uma caminhada sem maiores dificuldades entre 40 e 50 minutos chegamos à praia do Perigoso, mais porque este nome?

Contam os moradores mais antigos da Barra de Guaratiba que um bandido se refugiou naquela praia durante longo tempo, não se sabe o que aconteceu com o bandido, e desde então a praia ficou conhecida como Perigoso, mais vale arriscar.

Logo no início da caminhada, já se localiza um ponto de escalada na região, a Ponta do Picão, com pelo menos nove vias catalogadas na croquiteca da FERMEJ, uma boa opção para quem quiser escalar por lá.

Caminhando mais um pouco, temos a bela Ilha Rasa com seu belo farol, mais a frente temos uma dais mais belas vistas da Pedra da Tartaruga, local onde se encontram algumas escaladas em fendas e chaminés, conquistas feitas por Andre Ilha e Cia nas décadas de 70 e 80.
Porem, o maior atrativo outdoor da região é a problemática pratica do Rappel, nos finais de semana dezenas de pessoas se aventuram por lá sem conhecimento e nas mãos de supostos guias que acabam gerando graves acidentes, um detalhe a parte.

Procure um clube de montanhismo ou um guia de montanha credenciado a FEMERJ se pretende realmente praticar esta técnica, não arrisque a vida com irresponsáveis, se divertir com responsabilidade é ficar vivo.

O local também é usado como campo escola para os clubes de montanha como CEB e CERJ, que lá realizam instruções com seus alunos de cursos de escalada.

Subindo uma íngreme encosta por uma trilha bem demarcada, chega-se a Pedra da Tartaruga, o visual da cabeça da tartaruga é um show a parte, com o dia sem nevoa observa-se a Pedra da Gávea, os demais picos do Parque Nacional da Tijuca, os prédios da Barra da Tijuca, o bairro do Recreio dos Bandeirantes e as praias de Grumari, com mais três praias semidesertas da região; Praia do Meio, Praia Funda e Praia do Inferno. Esta vista torna-se um convite quase que irrecusável para dar um “esticadinha” até lá.

Com mais 50 minutos saindo da Pedra da Tartaruga, chega-se as areias da Praia do Meio, esta tem aproximadamente 200 metros de extensão e uma faixa bem larga de areia, esta praia tem suas correntes marítimas um pouco mais agitadas e freqüentemente surfistas são visto por lá.

Saindo da Praia do Meio, é possível voltar para a Barra de Guaratiba por trilhas, este caminho leva em média 2 horas, não é muito aconselhável para quem não conhece bem a região.

Partindo da Praia do Meio, com trinta minutos chega-se a Praia Funda e Praia do Inferno, praias com faixas de areia mais curtas e de fortes ondas.

O mergulho nestas praias é indispensável, para quem é adapto a praticas submarinas, algumas enseadas são uma ótima opção para o esporte.

Há no local uma pequena construção abandonada que servia como laboratório experimental da Universidade Federal Fluminense (UFF) e perto desta construção mora um senhor que se chama Raul, quando estive por lá, conversei um pouco com essa figura, ele nos contou que mora na praia a mais de 35 anos e briga na justiça pelo direito de continuar por lá.

Raul nos contou sobre o caso verão de 1987, o verão das latas, quando aproximadamente 20 mil latas com cerca de 1,5Kg de maconha cada uma navegavam nas praias cariocas. Diz Raul que no episódio, a praia teve mais de 100 moradores fixos, por que será? (rs).

Atravessando as pedras que dividem a Praia Funda, chega-se a Praia do Inferno, local de possibilidades, pequenas escaladas esportivas e boulder. Foi no inicio dos anos 2000 que nestas andanças conheci Atila Barros e Rodrigo Cojack, eles estavam procurando tais vias esportivas, e acabaram acampando perto de onde estava, foi o inicio de uma grande amizade.

Em todas as praias existem locais com água potável, porem não muito confiáveis em época de grande fluxo de pessoas pelas praias, já que nem todos são adeptos das boas práticas de convivência com a natureza, melhor mesmo é levar de casa ou tratar antes de usar.

O bom disso tudo é que a volta é recompensada com lindo visual, e o retorno para Barra de Guaratiba pode ser feito em uma hora e meia por trilha íngreme, às vezes nem tão bem demarcada (Vá sempre com quem conheça a região), mas logo se pode comemorar o passeio em um boteco do bairro. Barra de Guaratiba e bem quente durante quase todo o ano, logo uma cerveja gelada desce bem depois de um dia no sol.

No local ainda existe um pouco de lixo da época em que era permitido acampamento nessas praias, desde 2008 se tornou proibido o camping nas praias de Guaratiba. Alguns por não saberem ou ignorarem a ordem, continuam a praticar campismo na região e deixando seu lixo para trás.

Conversando com alguns moradores, fui informado que os guardas municipais só aparecem na região nos finais de semana prolongados, como carnaval e Semana Santa, já é alguma coisa. Contratempos a parte, estamos progredindo, o lixo tem diminuído assim como o numero de desavisados.

Para quem pretende chegar a estas praias e não quer ou não pode caminhar; inúmeros barcos de pescadores são vistos na região, logo existe a possibilidade de chegar às praias em um destes barcos (Traineiras). Não ha uma empresa que faça hoje a travessia Barra de Guaratiba, o acerto pode ser feito direto com o dono do barco, se informe com as pessoas e com o comercio do bairro. A região é fascinante vale a pena conferir.

Até o próximo quintal de casa! Grande abraço!
Paz e bem, boas escaladas na rocha e na vida.
Marcio Araujo.

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