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Equipe de resgate tem suas esperanças renovadas.

08/01/2009
Morte no Aconcagua

Pedro Hauck


Todos os anos repetem-se as noticias trágicas vindas da montanha mais alta e popular dos Andes, o Aconcagua.

Com um curriculum macabro, qualquer um que não conhece a montanha e nem o montanhismo, vai achar que nossa atividade é extremamente perigosa e nossas montanhas campos de batalha onde o montanhista luta até a morte contra as adversidades impiedosas da montanha.

Esta é uma visão totalmente errônea do que é o montanhismo e o que é o Aconcagua, mas infelizmente histórias trágicas continuam acontecendo e o vilão é a imprudência dos montanhistas. Imprudência em querer escalar algo que não está em sua capacidade física e mental e ingenuidade em achar que contratando um guia e uma expedição particular você irá conseguir chegar ao cume sem riscos.

Já falei várias vezes que o Aconcagua é uma montanha fácil, seja pela normal ou pelo Glaciar Polacos. Mas esta montanha é fácil somente para montanhistas. Ou seja, para quem está acostumado em subir montanhas seja no Brasil ou melhor ainda,nos Andes.

Acontece que todos têm essa facinação pelo mais alto. Todos os anos vejo pessoas treinando para ir ao Aconcagua e se tornar montanhistas, para no ano seguinte deixar de ser. Este é o perfil de quem se envolve em acidentes: Montanhistas da moda, aqueles que se atraem pela montanha, mas nunca praticou, nem mesmo nas montanhas próximas de casa.

Eu já fui ao Aconcagua duas vezes. A primeira, em 2002, eu tinha 20 anos de idade e fiz o cume pela normal sem ter guias, mulas, nada! Peguei cinco dias de tempestade em Nido de Condores e mais um dia em Berlim e persisti até o fim.

Na segunda vez, em 2004, fui com o Maximo para o Glaciar Polacos. No meio do caminho ajudamos os guarda-parques a resgatar dois corpos congelados e presenciamos o drama de uma morte e também o trabalho que a equipe de resgate tem descer os corpos.

Primeiramente a equipe de resgate leva um tambor de plásticos (desses azuis) até o local onde está o corpo. Lá, usando um fogareiro e uma faca quente, eles cortam o tambor ao meio e unem as duas partes com um arame aquecido no fogareiro e assim constróem uma plataforma para arrastar o corpo.

Várias pessoas ajudam na descida, que devido o terreno irregular é preciso fazer muita força. O corpo chega todo destruído na base de tanta batida. Lembro-me que o corpo que descemos, de uma alemão, chegou em Plaza Argentina quase sem queixo, de tanto bater nas pedras.

Quando o corpo chega nos acampamentos base, aí é hora dos helicópteros evacuarem. Eles geralmente embrulham os corpos com sacos de estopa e amarram na escotilha do helicóptero e levam embora, junto com o lixo e outros badulaques abandonados por lá.

Um guarda-parque me falou que antigamente, antes que o serviço do Parque Provincial tivesse helicópteros, eles tinham que evacuar os corpos nas mulas.

Acontece que as mulas não podem ver corpos, senão empacam. Então eles tinham que guardar os corpos dentro destes tambores azuis e assim amarrar na mula para levar embora. Acontece que corpo nenhum cabe dentro de um tambor, a não ser que não esteja inteiro. Para resolver este problema, os guarda-parques se aproveitavam do fato dos corpos estarem congelados e colocando uma pedra na cintura e fazendo uma "gangorra" partiam o corpo ao meio.

Macabro? Pois é....

Então sigam o conselho que eu deixei no site altamontanha. Não façam o Aconcagua como primeira montanha. É muito mais seguro chegar lá mais experiente. É mais econômico também, pois só o Aconcagua tem um permisso tão caro nos Andes.

Experimente outras montanhas, adquira experiência e só vá para o Aconcagua com certeza que é isso o que você quer.

Subimos montanhas para celebrar a vida e não para perdê-las. Montanhismo não é perigoso. Perigoso é tentar imitar montanhistas. Pense nisso!

Pedro Hauck, geógrafo e montanhista. Co-editor do site www.gentedemontanha.com, colunista do www.altamontanha.com e diretor de escalada do Clube Paranaense de Montanhismo e da FEPAM.

Visite: http://www.pedrohauck.net/

 
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