O que é que nos move? De onde vem
essa coisa que nos permite passar por tantas
adversidades e ainda querer continuar mais e mais?
Por que é que escalamos Montanhas? Ou porque
simplesmente não desistimos quando estamos prestes a
entrar na maior roubada de nossas vidas?
Depois de acompanhar os “montonaltas” nos debates no
portal
AltaMontanha.com,
está bem claro o que temos aqui, todos defendendo
sua tribo, sua ideologia e forma de ver o mundo.
Escalar uma montanha ou dobrar uma esquina, não
importa como se faz, mas com o que e com quem. Será
que estamos perdendo o sentido do esporte quando
usamos de tecnologia para fazer agora o que nossos
antepassados faziam com poucas ferramentas? A
resposta é Não. O que estamos fazendo é se adequar
às condições que hoje vivemos. Dentro da ética e das
normas cada um pode adaptar sua aventura ao seu
espírito de conquista com ou sem GPS, pagando ou não
para levar seu equipo montanha acima. Eu prefiro
carregar minha mochila, mas quem não pode?
O ego do esportista de montanha não
pode ser comparado ao de um atleta de natação ou de
um jogador de xadrez, o montanhista carrega o
espírito dos desbravadores, a vontade de ir mais
longe e obrigação de defender seu território. Temos
um esporte complexo, bem diferente de qualquer
outro. O montanhismo exige muito de seus
esportistas, sendo praticado em solo ou em grupo,
escalar ou caminhar requer mais que preparo físico,
requer paciência, dedicação e logística.
O
amor pelas viagens, a vontade de adquirir novas
culturas e ver o que poucos podem ver leva o
montanhista a cruzar fronteiras geográficas e
psicologias. Esse amor por novos desafios não é novo
em nossa espécie. Essa essência que existe em todo
montanhista está inconsciente em nossa matriz
genética. A grande diferença é que em algumas
pessoas esse fator “X” continua inerte, e em outros
ele é super ativo (Já que temos a montanha “X”
chamaremos assim esse diferencial).
O
fator “X” pode levar alguns a vestir um colan azul
com o “S” no peito e se jogar de base jump do topo
de uma montanha, ou solar uma via de grau
elevadíssimo sem equipamentos de segurança, mas será
que todos são iguais? O instinto é o mesmo, mas
nossas condições cotidianas talvez não permitam ir
tão longe. Mesmo com todas as dificuldades de nossa
vida corrida, não dá para frear esse instinto de se
jogar ao desconhecido.
Para
entender o fator “X”, basta olhar para o passado.
Colocar a mochila nas costas e atravessar montanhas
e florestas está em nossa natureza, é um elo de
ligação com o nosso passado nômade. No passado, a
falta de alimento e as fortes condições climáticas
forçavam o homem a se deslocar. Graças aos adventos
naturais, a cultura de povos distantes se misturou a
outras fazendo florescer grandes nações. Muito antes
do descobrimento ou muito antes da bússola, povos
nômades se lançavam ao desconhecido em busca novas
chances de sobrevivência. Hunos, Hebreus, Ciganos,
Xavantes ou Hippies, cada época e pedaço do globo
teve sua tribo e seus estilos de vida. Arte e
tradição que influenciaram e modificaram as terras
por onde passaram.
Transformando o fator “X” em algo que possamos
definir dentro da ciência humana, trocaremos esta
letra pelo termo “nomadismo”. O montanhista carrega
o nomadismo dentro de si e faz dele a vontade de ir
mais longe.
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O nomadismo é a prática dos
povos nômades, ou seja, que não têm uma
habitação fixa, que vivem permanentemente
mudando de lugar. Usualmente são os povos do
tipo caçadores-coletores, mundando-se a fim
de buscar novas pastagens para o gado quando
se esgota aquela em que estavam. Os nômades
não se dedicam à agricultura e
freqüentemente ignoram fronteiras nacionais
na sua busca por melhores pastagens.
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Há,
portanto, uma diferença básica entre este tipo de
nomadismo e o nomadismo coincidente com o início da
criação de gado. Alguns povos, eventualmente por
razões de natureza ambiental ou por, ao longo dos
anos, terem se afastado dos agricultores, preferiram
um tipo de vida exclusivamente dedicado à criação de
ovelhas, cabras, bovinos e outros animais. A
pastorícia implica uma frequente deslocação dos
animais criados em função dos recursos naturais
existentes ou para possibilitar a renovação da
flora. Em consequência da sua constante mobilidade,
os nômades não produziam, em geral, qualquer espécie
de cerâmica, que tinham de obter por troca.
Realizando um salto para os tempos modernos, longe
das tribos bárbaras ou dos filmes dos anos 50 em que
caravanas atravessam o deserto montados em camelos
vemos um movimento nômade bem reconhecido entre nós
e que talvez tenha influenciado muitos montanhistas
a se arriscarem pelo mundo em busca de novas
experiências. Hoje é comum andar nas ruas e olhar a
moda inspirada nesses nômades modernos: “os
hippies".
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Os "hippies" eram parte do
que se convencionou chamar movimento de
contracultura dos anos 60. Adotavam um modo
de vida comunitário ou estilo de vida
nômade, negavam o nacionalismo e a Guerra do
Vietnã, abraçavam aspectos de religiões como
o budismo, hinduísmo, e/ou as religiões das
culturas nativas norte-americanas e estavam
em desacordo com valores tradicionais da
classe média americana. Eles enxergavam o
paternalismo governamental, as corporações
industriais e os valores sociais
tradicionais como parte de um
estabelecimento único, e que não tinha
legitimidade. |
Por
volta de 1970, muito do estilo hippie se tornou
parte da cultura principal, porém muito pouco da sua
essência. A grande imprensa perdeu seu interesse na
subcultura hippie como tal, apesar de muitos hippies
terem continuado a manter uma profunda ligação com a
mesma. Como os hippies tenderam a evitar publicidade
após a era do Verão do Amor e de Woodstock, surgiu
um mito popular de que o movimento hippie não mais
existia. De fato, ele continuou a existir em
comunidades mundo afora, como andarilhos que
acompanhavam suas bandas preferidas, ou às vezes nos
interstícios da economia global. Ainda hoje, muitos
se encontram em festivais e encontros para celebrar
a vida e o amor. No Brasil essas figuras folclóricas
são encontradas em feiras livres, cidades esotéricas
(Ex. São Tomé das Letras – MG.) ou mesmo tentando a
vida nas grandes cidades vendendo artesanato. Quem
nunca comprou um brinco para namorada em uma
barraquinha desses residentes dos anos 70? Quem
escala em Tomé está até acostumado a dividir a rocha
com essas figuras.
Em
nosso caso, a busca de alimento não existe, e
transformamos essa vontade em filosofia de vida na
busca de novos desafios e conhecimento interior.
Para
ilustrar um exemplo desta influência podemos citar o
livro de John Krakauer, ele escreve em “Na Natureza
Selvagem” (Into the wild - Companhia das Letras) a
historia de Christopher McCandles ou Alexander
Supertramp. Krakauer pesquisou obsessivamente a vida
e a morte prematura do jovem Christopher McCandles,
que abandona tudo e parte em uma aventura sem volta.
Com o pseudônimo de "Alexander Supertramp", começa
sua viagem no Oeste dos E.U.A. e é encontrado morto
no Alaska. A vontade de testar seus limites faz
Christopher seguir uma viagem ao desconhecido em
busca de si mesmo e de algo que pudesse dar sentido
sua vida.
A incrível agonia me deixa em pânico.
Faço uma careta, urro um belo "porra!" e puxo meu
braço três vezes em uma ingênua tentativa de
arrancá-lo de baixo da rocha. Mas estou preso. "Ah,
merda, merda, merda!" Empurro a pedra com meu braço
esquerdo, tentando erguê-la com meus joelhos
servindo de calço. Empurro meus quadris por baixo da
pedra e faço força para cima, gemendo, "Vamos... se
mexe!". Nada.
Between a Rock and a Hard Place
Aron Ralston
Outro caso que gostaria muito de referenciar é o de
Aron Ralston. Essa aventura mostra a vontade de
viver de um jovem escalador que como muitos de nós
se lança sozinho em caminhos solitários pelas
montanhas e se vê sozinho em um acidente que coloca
sua vida em risco. Sozinho e sem a possibilidade de
pedir ajuda, Aron tem de escolher entre a morte ou
perder parte de seu braço, se é que pode se chamar
de escolha. Gosto de usar este como exemplo porque
evidenciou não só a mídia direcionada a montanhistas
pelo mundo. O caso Aron foi notícia em todos os
telejornais e fez muita gente pensar até onde ir
sozinho ao encontro do desconhecido. Meu falecido
pai sempre usava este caso para tentar me convencer
a parar de escalar, e como muitos aqui, nem pensei
em sequer tentar frear meus instintos. O mesmo Aron
continua escalando e desafiando seus próprios
limites agora sem um dos braços.
Depois de olhar o passado e entender de onde vem
essa vontade de ir mais longe, ou seja, o fator “X”,
fica mais claro entender o porquê somos tão
apaixonados pelo desafio. Como dizemos sempre, tá
no sangue! E está mesmo.
Esse
sentimento faz com que às vezes nos tornemos
verdadeiros protetores da geografia de nossas
aventuras, ou melhor dizendo defensores de nosso
quintal de casa. Impor nossa razão quando o
território selvagem está em perigo está locado em
nosso ser e devemos fazer deste um dever. Não
importa o número de desavenças que temos em nossa
comunidade, todos querem o mesmo, defender nosso
direito à aventura, defender nosso direito de ser
nômade e ainda ter onde exercer esse sentimento, em
nosso caso as montanhas. Urca, Marumbi, Patagônia ou
Serra do Cipó, todos queremos o melhor para nosso
quintal de casa e o direito de fazer dele nosso
maior desafio. Se concentrássemos nossos esforços em
progredir criando federações mais unidas, clubes
ativos e escaladores independentes atuantes, seria
mais sensato que trocar farpas por chats tentando
provar quem vai mais longe ou quem é o melhor no que
faz. Estamos todos por uma causa, temos todos o
mesmo espírito, somos todos montanhistas de alma e
nômades por natureza..
Força sempre e boas escaladas!
Atila Barros