Zona da Mata e Sul de Minas.

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Rocha e Gelo - Escalada e Montanhismo

Centro Excursionista Mineiro

Características geológicas da Serra do Lenheiro.
Por Antonio Paulo Faria

Normalmente as pessoas confudem a idade da montanha com a idade da rocha, porém, as montanhas aparecem e desaparecem devido aos processos geomorfológicos e sofrem muitas transformações em suas formas ao longo de milhões de anos, enquanto que a rocha é formada apenas uma vez e tem idade fixa. As rochas mais antigas da Serra do Lenheiro, como boa parte da Serra do Espinhaço, formaram-se há cerca de 1,8 bilhões de anos, no fundo de um antigo oceano que desapareceu. Sedimentos produzidos em antigos continentes foram transportados pelos rios e se depositaram no fundo do oceano, formando depósitos de quilômetros de espessura com camadas distintas de seixos, areia, lama e carbonatos. Com o tempo, a pressão e a cimentação das partículas transformaram essas camadas em rochas sedimentares do tipo: conglomerado, arenito, siltito, argilito e calcário.

Esses antigos continentes foram lentamente se movendo um em direção ao outro, devido ao deslocamento das placas tectônicas e o oceano que existia entre eles foi diminuindo de tamanho, gradativamente, até desaparecer. Finalmente os continentes se juntaram e como consequência, as camadas de rochas sedimentares que se formaram no fundo do oceano foram dobradas e soerguidas, dando origem à uma cordilheira. Esses dobramentos, acompanhados de atividades vulcânicas transformaram o conglomerado, o arenito, o argilito e o calcário, por exemplo, em meta-conglomerado, quartzito, ardósia e mármore, respectivamente. Este ciclo orogenético é conhecido na geologia como Transamazônico.

Como a Terra é extremamente dinâmica, a cordilheira que foi soerguida passou por severos processos de desgaste e foi completamente erodida e nivelada. O supercontinente formado “quebrou-se” e foi dividido em outros menores. No meio deles um novo oceano surgiu. Boa parte das rochas que formavam a cordilheira foram transformadas novamente em sedimentos, devido aos processos de intemperismo e erosão, sendo novamente depositados no fundo do novo oceano. Devido a esse novo ciclo de erosão nos continentes e deposição no oceano, novas camadas de rochas foram formadas no fundo marinho e também sobre as antigas rochas. No entanto, há 700 milhões de anos os continentes novamente começaram a se reagrupar, ciclo este terminado há 450 milhões de anos, formando o supercontinente Pangea. Na área onde os continentes se chocaram (entre o Brasil e a África) foi produzida uma nova cordilheira e as rochas foram novamente metamorfoseada. As antigas rochas que não sofreram erosão foram re-metamorfoseadas, dando origem às rochas complexas da Serra do Espinhaço e em particular, as rochas da Serra do Lenheiro. Por causa desses eventos, a região da Serra do Espinhaço tornou-se uma das áreas geológicas mais complexas do mundo, onde num mesmo local podemos encontrar rochas parecidas e misturadas, mas com idades diferentes, umas com cerca de 1,8 bilhões de anos, outras com cerca de 500 milhões de anos.

A nova cordilheira soerguida nesse último evento tectônico (junção dos continentes), conhecido como ciclo orogenético Brasiliano, abrangia uma área considerável, cortando as regiões Sul, Sudeste, Centro-oeste e Nordeste, mas não são conhecidas ainda as altitudes das montanhas. Mas como a outra cordilheira que desapareceu, esta também foi erodida, porém, ainda é possível observar parte dos dobramentos que a originou. Montanhas mineiras como: Pico do Sol, Pico do Inficionado, Pico do Itambé, Pico do Itacolomi e Pico do Breu, entre outras, foram produzidas sobre as camadas de rochas mais resistentes que sobraram dessas dobras erodidas, ou seja, elas são os restos que sobraram da antiga cordilheira.

A Serra do Lenheiro foi esculpida sobre uma dessas dobras (anticlinal). Da estrada de terra que da acesso à área de escalada é visível as camadas de rochas inclinas em até 30°, aliás, a própria estrada segue aproximadamente esta mesma inclinação. Existem vários tipos de rochas na área conhecidas como Formação Tiradentes, como diferentes tipos de meta-arenitos (quartzitos) que possue uma espessura de cerca de 280 metros, além de metassiltitos e conglomerados. A rocha predominante na área de escalada é o quartzito, uma das mais resistentes. Esta área de escalada é notável devido à qualidade das fendas. A maior parte das fendas verticais, como exemplo a da via Lúcifer, formaram-se devido ao dobramento das camadas de rocha. Se pegarmos uma régua de plástico rígido e dobrá-la, veremos que várias dezenas de microfissuras serão formadas paralelamente uma das outras, o mesmo acontece com as rochas duras quando são dobradas. Na medida que as camadas de rochas superiores são erodidas, as camadas de baixo, agora na superfície, expõe microfissuras que ao longo do tempo se alargam, porque o terreno sede pelo processo de alívio de carga e também pela erosão dentro das próprias fendas. Na parede principal onde se encontra a via Lúcifer, várias microfendas são visíveis, mais não são largas o suficiente para colocar proteções móveis. Outras fendas foram alargadas pela erosão e isso é perceptível quando as bordas se encontram arredondadas, como pode ser visto em várias vias de escaladas, inclusive nas chaminés.

Algumas fendas são recentes, como exemplo a da parte inferior da via Sublime Incosequência, que ainda possue as bordas angulosas “afiadas”. Isso deu-se, provavelmente, por causa de um ligeiro deslocamento do bloco (torre) onde ela se encontra, que ocasionou no rompimento (fraturamento). Na base são encontrados vários blocos de tamanhos consideráveis que se soltaram, alguns formaram tetos.

São visíveis também inúmeras fendas que acompanham a inclinação das camadas. Essas foram produzidas nas partes menos resistente da rocha, provavelmente enfraquecidas por diferentes substâncias que se depositaram junto com a areia durante o processo de formação. Aliás, a decomposição e erosão dessas partes menos resistentes que se dispõe de forma paralela às camadas também formaram as enormes agarras, algumas em formato de cogumelo, como as que são encontradas nas vias Portal do Delírio, Alta Tensão, Rota das Âncoras, etc. Os buracos encontrados na “caverna” também se formaram pela decomposição e erosão das partes menos resistentes da rocha, processos favorecidos pela maior umidade do local, em função do sombreamento. Apesar da rocha do local ser quartzito, ela difere dos quartzitos que formam as torres, e isso pode ser em função do tamanho dos grãos de areia que deu origem à rocha, ao tipo de cimento que agregou os grãos e o grau de metamorfismo que cada camada foi submetida.

E assim foi originada a Serra do Lenheiro, a forma que vimos hoje foi esculpida durante os últimos 2 milhões de anos, mas algumas características têm influências de processos que ocorreram cerca de 1,8 bilhões de anos, quando algumas das rochas locais estavam em processo de formação.

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Croquiteca - Guia - Escalada de Minas.

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